Série de entrevistas com autores de língua portuguesa
Acredito que a associação entre língua e cultura seja extremamente forte. O nome que damos para as coisas já demonstra a maneira como nos relacionamos com elas. A variedade do vocabulário, as flexões dos verbos, os diminutivos carinhosos, os adjetivos, os palavrões. A língua condiciona, em alguma medida, o modo como vivemos e vemos o mundo. A identidade lingüística deve, portanto, ter algum significado.
Mas qual é a relação que temos com os outros países que falam a nossa mesma língua? O que conhecemos deles? Muito pouco. Eu, que sempre gostei de ler, só vim a me interessar por autores portugueses, angolanos, moçambicanos, entre outros, há pouquíssimo tempo.
Não falo dos grandes clássicos, como Camões, Eça de Queiroz ou Fernando Pessoa, falo dos atores da atualidade. Com exceção de Saramago, acho que poucas pessoas se lembrariam deles. Mesmo Lobo Antunes, consagrado em Portugal, é pouco conhecido por aqui.
Com a discussão em torno da reforma ortográfica, ou acordo ortográfico para unificação da língua portuguesa, veio à tona a questão da importância da aproximação entre os países que falam o português. O engraçado é que, já em 1996, foi criada a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que hoje conta com oito Estados membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Ou seja, esse tema não é novo.
Coincidência ou não, recentemente acabei tendo contato com o trabalho de outros autores de língua portuguesa, como Inês Pedrosa, José Luís Peixoto, Mia Couto, Miguel Sousa Tavares, para citar alguns, e tive uma grande surpresa. Acabei encontrando ali, espelhado de alguma forma, o Brasil. Em alguns momentos o olhar carinhoso, em outros o estereotipado, mas sempre a curiosidade, o interesse. E isso me fez refletir sobre a nossa identidade e a nossa relação com esses outros países, tão próximos e tão afastados.
Literatura, para mim, é uma forma de ver e sentir o mundo. Não se trata de compreensão, mas de reflexão. É uma tentativa, sempre fracassada, de transformar a vida em algo concreto, palpável, palatável. Daí a idéia de entrevistar esses autores para saber deles como vêem o mundo, compartilhar essa visão e entender se e como o Brasil se insere nesse contexto.
Não é o discurso literário. Não é o discurso político. É apenas um olhar. Apenas uma tentativa de descobrir do que somos feitos, o que temos em comum, o que podemos aprender uns com os outros, o que de nós se misturou, o que se perdeu, o que se ganhou, o que vale a pena resgatar, o que é preciso perder.