Beatriz Bracher é romancista. Tem quatro livros publicados, sendo o último de contos. Em comum, os personagens dos seus romances falam em primeira pessoa, num tom confessional e intimista que busca, sutilmente, conquistar a empatia do leitor. Ao contarem suas histórias ou a história que cabe a eles narrar, parece que eles próprios se surpreendem com o que trazem à tona. É o depoimento que constrói os fatos, não são as palavras que decorrem deles.
É assim em Azul e dura, seu romance de estréia, publicado em 2002, aos 40 anos da autora. A personagem principal, Mariana, em crise após enfrentar uma separação e um acidente de carro que resulta em morte, enclausura-se em si mesma para fazer um balanço da sua vida e tentar encontrar um caminho, um novo caminho.
A instabilidade emocional e a confusão da personagem contaminam a narrativa que se fragiliza e quebra, mas não se interrompe. E assim Mariana narra sua história e a constrói simultaneamente.
Em Não falei, Beatriz passa do diário à crônica de época, conduzindo sua história em meio à repressão política e ao violento cenário da ditadura militar. O tema da educação, que, de início, parece ser secundário, ganha espaço dentro do livro e inaugura um debate. O personagem, Gustavo, tem sua vida transtornada pelo assassinato do cunhado e pela morte da esposa, no exílio. Ele mesmo, vítima de tortura, parece ter sua integridade posta em causa em razão da dúvida da delação contra o cunhado. Mas tampouco sabemos se essa desconfiança é real.
Se a confusão de Mariana é anterior à narrativa e se traduz nela, a de Gustavo nasce da consciência do que essa narrativa é capaz de criar. De novo um narrador-controlador, que se faz ouvir em voz própria ou através de depoimentos que ele mesmo escreve. Conhecemos os outros personagens por meio dele, de sua visão pessoal e naturalmente deturpada. O irmão, que lhe faz contraponto, não fala diretamente, mas pela via da ficção, do livro que escreveu, impondo camadas de filtros até se fazer ouvir, enfraquecendo, mais uma vez, a sua voz em favor do personagem principal.
Não é o que acontece em Antonio, seu último romance, que recebeu em 2008 o Prêmio Jabuti (3º lugar) e o Prêmio Portugal Telecom (2º lugar). Num movimento de aparente ruptura, o personagem central dessa narrativa, Benjamim, perde a voz para seus três interlocutores: a avó e dois amigos da família. Mas o tom confessional permanece. Cada um dos três, instados por Benjamim, dão o seu depoimento.
É Benjamim quem faz rodar esse mecanismo. Às vésperas do nascimento do seu primeiro filho, Antonio, ele precisa conhecer a verdadeira história do seu pai, Teodoro. Mas talvez não seja correto apontar Benjamim como o personagem central dessa trama. Quem parece estar em causa é a própria família, essa instituição que protege e destrói a si mesma e aos seus num movimento incessante.
A busca de novos caminhos para a palavra é uma das marcas centrais do trabalho de Beatriz Bracher. Em Meu amor, seu livro de contos, a experimentação é evidente. É possível encontrar, num mesmo parágrafo, a convivência de vozes em 1ª e 3ª pessoa, por exemplo, ou o apelo a recursos gráficos, como a duplicação de letras ao longo do texto ou uma formatação específica dos parágrafos na página. A variedade de temas, em diferentes registros e tons, forma um conjunto eclético e interessante. Com este livro, a autora ganhou o Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional, em 2009.
Existe um embate entre fragilidade e dureza na narrativa de Beatriz Bracher. Como se as palavras fossem feitas de argila. Material que se presta a assumir formas muito diferentes; maleável e aparentemente dócil, mas, que depois de seco, perde sua elasticidade e endurece. Desse barro resultam figuras de contornos definidos, mas que mantêm, intrínseco, o risco da queda.
Eu fiz a faculdade de letras e fui uma das fundadoras da revista de literatura 34 Letras. Eu escrevia alguma coisa, mas sem a coragem de mostrar para ninguém. Depois a gente começou a fazer a Editora 34, com outro grupo de amigos. Durante esse período da revista e da editora, eu parei de escrever. O meu trabalho era criar um ambiente legal para os outros publicarem, pessoas que eu achava interessantes.
Nesse período em que eu estava na editora, em 1994, o Sergio Bianchi me chamou para eu escrever o roteiro de um filme dele. Depois de um mês de trabalho, eu vi que não ia ter tempo, então eu falei para ele fazer o que quisesse com aquilo. Nem sequer era um roteiro ainda, quer dizer, eu tinha organizado em cenas, mas de uma maneira bastante amadora. E isso ficou sendo então o que ele chamou de ideia original do filme. O roteiro quem fez foi outra pessoa e o filme é o “Cronicamente inviável”, que saiu em 2000, e teve um sucesso de crítica muito grande. Quando eu fui assistir, fiquei muito impressionada porque duas ou três cenas estavam exatamente como eu tinha escrito. Isso me acendeu uma luz, de que eu podia escrever, de que eu tinha o que dizer. Coisas que eu achava que eram muito pessoais podiam interessar aos outros. Às vezes, exatamente por serem pessoais, elas são percebidas como pessoais para cada um.
Eu estava há 8 anos lá na editora e acho que eu já tinha aprendido um monte de coisas. A editora estava estabelecida, gerava seu próprio dinheiro, pagava salários, tinha 200 títulos em catálogo. A minha ideia foi que, dali pra frente, ou eu ficava e tentava, cada vez mais, ser uma editora melhor ou tentava o que eu sempre quis fazer, que era ser escritora. De alguma maneira, ter trabalhado esse tempo na editora, analisando originais, e ter visto cenas que eu tinha escrito no filme me deu a coragem para sair. Então eu saí para um ano sabático, em 2000. Eu me propus a escrever um livro nesse ano. Acabado o ano, eu ainda não tinha terminado de escrever, mas eu já tinha me encantado e descoberto que era isso o que eu queria ser ‘quando crescesse’. Com 40 anos eu descobri isso. E aí então eu comecei a escrever.
Na verdade, eu fiz o maior esforço para publicar com 40 e consegui, faltava uns meses pra completar 41. Na minha cabeça também tinha essa mística de que a vida começa aos 40, para mim isso era importante. Eu falo em coragem, mas não no sentido de que eu soubesse que eu era uma escritora, tivesse medo de ser e então criasse coragem e resolvesse ser. Quando eu decidi fazer a faculdade de letras, eu me lembro de, conversando com amigos, dizer que eu ia fazer letras porque eu achava que a coisa mais importante do mundo era o escritor. Acho que, se a pessoa consegue ser um bom escritor, isso é o máximo que uma pessoa pode fazer na vida. Então, colocando o escritor nesse patamar tão alto, eu jamais ia pretender chegar lá.
Quando eu comecei a escrever para publicar, a minha escrita mudou muito. Eu sempre escrevi diários, anotações. Eu sempre me mantive escrevendo. Mas, quando foi para publicar, parece que a escrita tinha que ser mais veraz, tinha que ter mais veracidade do que o meu diário. A escrita não podia ser usada só para dizer coisas, ela própria tinha que ter uma força, uma estrutura. Eu uso muito a palavra ‘verdade’. A escrita tem que ganhar um tônus quando ela é para os outros lerem. Quando é para você mesmo, é um registro de algo que você sabe o que é, um duplo de algo que você viveu, que você pensou. A escrita de ficção, que você escreve para os outros lerem, não é um duplo de nada, ela está inaugurando ali um espaço, ela está criando aquele espaço, aquela existência dos personagens, aquela história. Então eu acho que ela exige muito, muito mais dedicação e habilidade.
Eu sou uma leitora assídua de contos. Mas, na minha cabeça, eu era romancista e eu escrevia os contos como estratégia de divulgação. Uma revista, um jornal encomendava. O romance tem uma coisa que vai te levando. Depois que você inicia, você tem uma briga constante com aquela história, com aquele estilo, com aqueles personagens que você criou, mas você já sabe, pelo menos, em qual massa vai ter que mexer. Você não precisa a cada dia estar reinventando aquilo. E no conto é isso, a cada conto que você começa você tem que criar o mundo de novo. Mas os contos começaram, eu acho, a sair legais, a serem coisas que eu queria fazer melhor, experimentar mais. Eu via ali um caminho que no romance eu não vejo, que é o de você ter que ser muito enxuto. No romance tem a questão do tempo que você demora a ler, a entender qual é a história, a conviver com os personagens, que no conto não tem. Então é como se você fosse obrigado a ser mais denso e preciso ao mesmo tempo.
Quando eu vou escrever, eu tenho de falar porquê que a pessoa está contando aquela história. É como se eu sempre tivesse que criar um motivo. Talvez por isso esse tom, às vezes, de depoimento, de fala, de pensamento dos meus personagens. Como se, para dar verossimilhança, eu tivesse que falar que essa história está sendo contada por algum motivo específico. No primeiro livro (Azul e dura), a personagem precisava reavaliar a vida dela para ver como ela iria seguir. No segundo (Não falei), era por causa de uma entrevista. E no terceiro (Antonio), era para falar para o filho do Teodoro a história do Teodoro. E o filho do Teodoro quer saber essa história porque ele vai ter um filho. E é completamente bobo isso, porque eu leio livros em que se conta uma história - e acho maravilhoso - sem que ninguém precise ficar me explicando porquê. Mas é como se o lugar, o ponto de vista do narrador, para mim, fosse muito importante.
Eu queria escrever em terceira pessoa. Era um desafio para mim. Eu acho que o ‘eu’ cria um peso que as vezes impede voos mais soltos, porque qualquer transgressão que você faz fica muito ligada ao narrador e não à história propriamente dita. Enfim, eu queria experimentar outras coisas. Então eu criei essa maneira, que era ter um personagem que conta uma história que aconteceu. E aí conta em terceira pessoa. O narrador é o que menos importa. Eu achei que podia fazer isso em Antonio, e saiu tudo ao contrário. Tudo bem, são três personagens que falam sobre uma quarta pessoa, mas o livro acaba revelando muito mais sobre quem fala do que sobre de quem se fala. Então acabou esse ‘eu’ predominando aí de novo. Mas acho que já evoluí um pouquinho. De alguma maneira, o assunto não é necessariamente a pessoa que está falando, apesar de ela se revelar muito ao contar a história do outro.
Eu acho que, de fato, a gente se constrói através de palavras ou a gente é capaz de se reconhecer porque as palavras existem. Acho que, na verdade, a nossa vida se constrói de muitas outras coisas, mas a gente só é capaz de pegar essas outras coisas, e com isso montar algo que seja compreensível para a gente, porque existem as palavras e porque a gente lida com elas. Por outro lado, as palavras são sempre insuficientes para dar conta de tudo aquilo, ou seja, da alegria, do desespero, enfim, ou até de descrever o sabor da banana, do que é bom ou do que é ruim. Então eu acho que esse conflito entre a insuficiência da palavra e a necessidade absoluta dela, porque é ela que constrói qualquer coisa que você toca, que você entende, talvez seja um ponto de união entre os três romances.
Eu não tenho um projeto literário. Talvez o que eu me imponha em relação à obra seja procurar caminhos diferentes. Mas, quando começo um livro, eu não sei muito bem o que ele vai ser. Por exemplo, o Azul e dura eu queria que fosse sobre a relação da imprensa com o poder, e não tem nada a ver com isso. O Antonio eu queria que fosse uma história em terceira pessoa, não é. O Não Falei eu queria que fosse um depoimento, uma história, que abordasse uma geração que, apesar de ser jovem na época dos Beatles, praticamente não ouvia os Beatles. Isso não foi importante na formação deles, na maneira de ver o mundo, nem nada. Mas o livro não tem nada a ver com isso.
Eu tenho um amigo, o Nuno Ramos, que brinca dizendo que eu transformo qualquer coisa em caso de família. Alguém me pede para escrever um conto sobre um caso de amor e eu transformo num caso de família. E eu acho que tenho isso muito forte. Em Não Falei, por exemplo. Se você descobre alguma coisa que aconteceu na sua família, a sua forma se muda inteira, você tem que descobrir de novo a sua forma, porque o que você pensou que era você não é mais. Eu, pessoalmente, acho que eu sou muito amalgamada com a família e isso é bom e é ruim. É uma coisa que eu percebo como um poder muito grande, que a família exerce sobre mim, mas que eu também, como família, exerço sobre os outros. Enfim, a questão da família e da identidade eu acho que é um assunto pessoal e que passa com muita força para a minha ficção também.
Eu acho que a geração acima da minha e a acima da acima da minha foram gerações que tiveram objetivos mais claros, no sentido de que tiveram inimigos mais claros do que o que minha geração teve. De alguma maneira, eu sentia que havia muita injustiça com a geração da qual eu fazia parte. Havia uma crença muito pequena de que alguém da minha geração pudesse dar certo, porque eramos todos alienados. Era como se a gente tivesse que fazer muita força para ser bem visto aos olhos de quem nós víamos bem. Mas eu acho que esse tema é algo bem pontual, histórico, que foi muito importante para mim, mas que eu não sinto que prossiga em movimento. É um passado importante, mas não é o que me move a novas descobertas. O que eu acho é que nos dois romances, em Antonio e em Não falei, existe uma crítica a essa geração de cima também.
Em Não falei, a questão da educação, que é muito importante, aparece sob o prisma da traição. Quando você se dispõe a educar pessoas numa cultura diferente da sua, no caso pessoas que vem de famílias analfabetas, por exemplo, ao você alfabetizar essas pessoas você está criando uma distância entre elas e os pais delas que pode ser considerada uma traição, porque é um pouco isso mesmo. Você está deixando de ser alguém, e isso não é só positivo, tem um lado também negativo. O Marcelino Freire tem um conto muito bonito sobre a riqueza de alguém analfabeto, sobre como, ao escrever, você abandona um monte de coisas que você tem e possui, principalmente um adulto analfabeto (“Totonha”, em Contos Negreiros, de Marcelino Freire).
Quando você apanha, por mais que você esteja certo e o outro cara absolutamente errado, é algo horrível. É horrível ser torturado. É horrível para você, é horrível para o cara que bate, é horrível para o país que tenha criado uma situação dessas. Eu acho uma visão muito pobre do mundo você se orgulhar de ter sido torturado e preso e usar isso como mérito sobre outros que não o foram. É quase uma perversão. E eu acho que a louvação do pessoal que fez parte da luta armada, como se não tivesse havido outro tipo de resistência democrática, é um erro. Houve outros caminhos, que não a luta armada, tão importantes quanto, que foram os que venceram a ditadura no final. Eu acho que eles deviam ser muito mais valorizados do que são.
O Graciliano Ramos, quando saiu da prisão, ele era do partido comunista, e pediram para ele escrever um depoimento, ele escreveu Infância. Ele só foi escrever Memórias do Cárcere muitos anos depois. Eu acho isso uma das coisas mais comoventes que tem na história da literatura brasileira. Em Não falei, como era um livro político, eu tinha que falar sobre educação e sobre criança. Não é sobre a ideologia. Eu acho que onde a ideologia está mais presente é na forma como a gente educa, na importância que a gente dá à educação. A ideologia no sentido de partido político, de governo, já é ela institucionalizada, e como briga. Mas a presença dela, que pode ser maléfica ou benéfica, de qualquer maneira, molda a sociedade. Eu acho que são dois temas muito afins. Esse livro foi escrito também numa época em que eu, e muitos brasileiros, estávamos felizes por viver num país onde era possível eleger um operário para presidente. Mas logo isso passou para uma coisa de carisma, de santificação, e isso me deu uma certa revolta.
Eu não acho que quem é de uma classe mais alta necessariamente é mais arrogante ou é pior do que quem é de um classe mais pobre, mas é o que eu conheço melhor, que eu conheço mais de dentro, porque eu conheço a mim mesma. Tem muitas pessoas que falam que eu faço crítica a uma determinada classe social. Sim, à medida que eu faço uma crítica a mim mesma. Eu não estou falando de um lugar diferente de onde eu sou. Eu espero que não tenha uma louvação do pobre, acho que não é uma coisa maniqueísta. Como o dinheiro é um formador que cria determinados gostos, determinadas palavras, te dá impressão de que você não consegue se comunicar com pessoas de outra classe. Mas é possível essa comunicação, porque, enfim, acima de tudo, somos seres humanos e compartilhamos 90% do que a gente é, ou muito mais que isso. Então, talvez o que exista mais presente seja esse medo de empobrecimento por estar isolada numa classe, tanto de um lado como de outro.
Estou escrevendo o roteiro de um filme agora. O Karim Aïnouz foi contratado para dirigir e o mesmo produtor que o chamou, chamou a mim para escrever o roteiro. Mas ele não conhecia o meu trabalho, então eu dei a ele alguns dos meus livros, a gente conversou sobre a história, escrevemos juntos e agora eu estou desenvolvendo o roteiro. As filmagens vão começar no dia 20 de agosto. Na verdade, eu já acabei o roteiro, mas sempre tem uma porção de coisas para consertar. Eu aceitei fazer o roteiro porque eu adoro o trabalho do Karim e esse convite foi uma maneira de reconhecimento do meu trabalho. Acho que ele é um dos melhores que se tem no Brasil, então fiquei muito contente. Aceitei também porque estou com muita dificuldade de escrever o meu novo romance. Está bem difícil, mas é a próxima coisa que eu vou fazer logo depois que eu acabar o roteiro.
De novo, são três vozes, na verdade quatro dessa vez. E as vozes estão em tempos diferentes. Uma está em 2040, duas estão em 2010 e uma está em 1995. É um pai, já mais velho, um filho de 22 anos, uma irmã, que também está com 22 anos, e outra irmãzinha que está com 11, mas que também vai escrever no futuro, quando ela já vai estar com 50 anos. Mas acho que eu imaginei uma estrutura tão complicada que eu mesmo não estou me entendendo. Talvez eu vá ter que mudar. Tem coisas que eu escrevi lá que eu gosto bastante, mas não está formando um romance. Eu vou ter que pensar melhor.
Eu não senti, até agora, que o trabalho de roteirista influenciou meu trabalho de literatura, mas o oposto acontece muito. Como se eu fosse uma pessoa de literatura que vai escrever um roteiro e então levo para lá tudo o que eu tenho. Por isso eu fico muito irritada quando estou escrevendo um roteiro, porque a escrita do roteiro tem que ser muito pobre, tem que ser muito limpa. Você repete mil vezes o nome da personagem ou o pronome porque não pode ter ambiguidade. Imagine uma coisa que não pode ter ambigüidade. É uma loucura. Não pode ter pensamento interior, porque tudo isso vai ser dado pelas cenas, não pode ser dado pela escrita. Enfim, os dois diretores com quem eu trabalhei tiveram muita paciência comigo, de aceitar a primeira versão e depois me dar tempo para ir limpando, limpando…
Para mim foram muito importantes. Alguém muito claramente, muito publicamente, anunciou no megafone: você é uma escritora. Porque, na verdade, todas as áreas que incluem ganhar salário ou ser um empresário e ter lucro têm um parâmetro muito certo para saber se você está tendo sucesso ou não, que é o seu salário estar aumentando, sua empresa estar ganhando mais dinheiro. E o escritor não tem. Um crítico vai falar que você é bom, o outro vai falar que você é ruim ou vai te ignorar. E venda de livro - eu fui editora de livros - não é um bom parâmetro. Tem maus escritores que vendem muito e vendem pouco e bons escritores que vendem muito ou vendem pouco. Enfim, para mim, os prêmios foram muito importantes para me assegurar do meu lugar.
Funcionam como um reconhecimento. Só que na Flip, por exemplo, como nos festivais em que eu já fui chamada, tem uma coisa gostosa do contato com o público, de pessoas que não me conhecem virem falar que leram o livro. E, às vezes, têm impressões muito frescas porque, como meus livros são muito parecidos comigo, os meus amigos vêm e falam sobre isso, e os críticos falam muito sobre a forma e isso e aquilo, mas, de repente, uma pessoa que não me conhece tem ideias completamente inusitadas sobre o que eu escrevi e isso me alimenta muito, eu fico feliz. Agora, o momento de falar em público é duro, não me agrada muito.
É mais fácil para ela (imprensa) falar de um autor estrangeiro porque esse autor já chega com o aval de ter feito sucesso ou não lá fora, por ter críticas feitas por tal ou tal pessoa. É mais seguro. No caso do autor nacional, ele é o responsável por dizer se o cara é bom ou ruim.
(Os países de língua portuguesa) têm em comum o instrumento de perceber o mundo. Eu acho que isso é totalmente verdade, eu acho que as dificuldades que a gente tem e as facilidades têm a ver com esse instrumento de perceber o mundo que é a nossa língua.
Acho que a questão de você tentar manter unificada uma língua tem muito a ver com poder e eu isso não está errado. A cultura de língua portuguesa já tem tão pouco espaço no mundo, se ela se subdividir em muitas…
No espaço de 100 anos, realmente, se você não mantiver alguma unidade linguística, acho que você passa a ter outra língua.
A linguagem escrita precisa acompanhar, de alguma maneira, a evolução da maneira como as pessoas se expressam. Então precisaria haver uma revisão ortográfica. Talvez ela pudesse ter sido feita em cada um dos países, mas se escolheu fazer uma comum. Eu acho que a escolha de ser a comum é correta. Agora, se foi mudado o que tinha que mudar ou não, já é outra discussão.
1. Para o leitor que nunca leu um trabalho seu, qual dos seus livros você indicaria e por quê?
2. Poderia ler um texto seu?
[Entrevista publicada no Portal Cronópios em 17 de agosto de 2010, às 22:19:00]


