A fragilidade da pedra

setembro 17, 2010

 

A maleabilidade da prosa de Beatriz Bracher e suas figuras de barro

 

Beatriz Bracher é romancista. Tem quatro livros publicados, sendo o último de contos. Em comum, os personagens dos seus romances falam em primeira pessoa, num tom confessional e intimista que busca, sutilmente, conquistar a empatia do leitor. Ao contarem suas histórias ou a história que cabe a eles narrar, parece que eles próprios se surpreendem com o que trazem à tona. É o depoimento que constrói os fatos, não são as palavras que decorrem deles.

É assim em Azul e dura, seu romance de estréia, publicado em 2002, aos 40 anos da autora. A personagem principal, Mariana, em crise após enfrentar uma separação e um acidente de carro que resulta em morte, enclausura-se em si mesma para fazer um balanço da sua vida e tentar encontrar um caminho, um novo caminho.

A instabilidade emocional e a confusão da personagem contaminam a narrativa que se fragiliza e quebra, mas não se interrompe. E assim Mariana narra sua história e a constrói simultaneamente.

Em Não falei, Beatriz passa do diário à crônica de época, conduzindo sua história em meio à repressão política e ao violento cenário da ditadura militar. O tema da educação, que, de início, parece ser secundário, ganha espaço dentro do livro e inaugura um debate. O personagem, Gustavo, tem sua vida transtornada pelo assassinato do cunhado e pela morte da esposa, no exílio. Ele mesmo, vítima de tortura, parece ter sua integridade posta em causa em razão da dúvida da delação contra o cunhado. Mas tampouco sabemos se essa desconfiança é real.

Se a confusão de Mariana é anterior à narrativa e se traduz nela, a de Gustavo nasce da consciência do que essa narrativa é capaz de criar. De novo um narrador-controlador, que se faz ouvir em voz própria ou através de depoimentos que ele mesmo escreve. Conhecemos os outros personagens por meio dele, de sua visão pessoal e naturalmente deturpada. O irmão, que lhe faz contraponto, não fala diretamente, mas pela via da ficção, do livro que escreveu, impondo camadas de filtros até se fazer ouvir, enfraquecendo, mais uma vez, a sua voz em favor do personagem principal.

Não é o que acontece em Antonio, seu último romance, que recebeu em 2008 o Prêmio Jabuti (3º lugar) e o Prêmio Portugal Telecom (2º lugar). Num movimento de aparente ruptura, o personagem central dessa narrativa, Benjamim, perde a voz para seus três interlocutores: a avó e dois amigos da família. Mas o tom confessional permanece. Cada um dos três, instados por Benjamim, dão o seu depoimento.

É Benjamim quem faz rodar esse mecanismo. Às vésperas do nascimento do seu primeiro filho, Antonio, ele precisa conhecer a verdadeira história do seu pai, Teodoro. Mas talvez não seja correto apontar Benjamim como o personagem central dessa trama. Quem parece estar em causa é a própria família, essa instituição que protege e destrói a si mesma e aos seus num movimento incessante.

A busca de novos caminhos para a palavra é uma das marcas centrais do trabalho de Beatriz Bracher. Em Meu amor, seu livro de contos, a experimentação é evidente. É possível encontrar, num mesmo parágrafo, a convivência de vozes em 1ª e 3ª pessoa, por exemplo, ou o apelo a recursos gráficos, como a duplicação de letras ao longo do texto ou uma formatação específica dos parágrafos na página. A variedade de temas, em diferentes registros e tons, forma um conjunto eclético e interessante. Com este livro, a autora ganhou o Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional, em 2009.

Existe um embate entre fragilidade e dureza na narrativa de Beatriz Bracher. Como se as palavras fossem feitas de argila. Material que se presta a assumir formas muito diferentes; maleável e aparentemente dócil, mas, que depois de seco, perde sua elasticidade e endurece. Desse barro resultam figuras de contornos definidos, mas que mantêm, intrínseco, o risco da queda.

Com a palavra, Beatriz Bracher:

Início

 

Eu fiz a faculdade de letras e fui uma das fundadoras da revista de literatura 34 Letras. Eu escrevia alguma coisa, mas sem a coragem de mostrar para ninguém. Depois a gente começou a fazer a Editora 34, com outro grupo de amigos. Durante esse período da revista e da editora, eu parei de escrever. O meu trabalho era criar um ambiente legal para os outros publicarem, pessoas que eu achava interessantes.

Cinema

 

Nesse período em que eu estava na editora, em 1994, o Sergio Bianchi me chamou para eu escrever o roteiro de um filme dele. Depois de um mês de trabalho, eu vi que não ia ter tempo, então eu falei para ele fazer o que quisesse com aquilo. Nem sequer era um roteiro ainda, quer dizer, eu tinha organizado em cenas, mas de uma maneira bastante amadora. E isso ficou sendo então o que ele chamou de ideia original do filme. O roteiro quem fez foi outra pessoa e o filme é o “Cronicamente inviável”, que saiu em 2000, e teve um sucesso de crítica muito grande. Quando eu fui assistir, fiquei muito impressionada porque duas ou três cenas estavam exatamente como eu tinha escrito. Isso me acendeu uma luz, de que eu podia escrever, de que eu tinha o que dizer. Coisas que eu achava que eram muito pessoais podiam interessar aos outros. Às vezes, exatamente por serem pessoais, elas são percebidas como pessoais para cada um.

Mudança de rumo

 

Eu estava há 8 anos lá na editora e acho que eu já tinha aprendido um monte de coisas. A editora estava estabelecida, gerava seu próprio dinheiro, pagava salários, tinha 200 títulos em catálogo. A minha ideia foi que, dali pra frente, ou eu ficava e tentava, cada vez mais, ser uma editora melhor ou tentava o que eu sempre quis fazer, que era ser escritora. De alguma maneira, ter trabalhado esse tempo na editora, analisando originais, e ter visto cenas que eu tinha escrito no filme me deu a coragem para sair. Então eu saí para um ano sabático, em 2000. Eu me propus a escrever um livro nesse ano. Acabado o ano, eu ainda não tinha terminado de escrever, mas eu já tinha me encantado e descoberto que era isso o que eu queria ser ‘quando crescesse’. Com 40 anos eu descobri isso. E aí então eu comecei a escrever.

Estreia

 

Na verdade, eu fiz o maior esforço para publicar com 40 e consegui, faltava uns meses pra completar 41. Na minha cabeça também tinha essa mística de que a vida começa aos 40, para mim isso era importante. Eu falo em coragem, mas não no sentido de que eu soubesse que eu era uma escritora, tivesse medo de ser e então criasse coragem e resolvesse ser. Quando eu decidi fazer a faculdade de letras, eu me lembro de, conversando com amigos, dizer que eu ia fazer letras porque eu achava que a coisa mais importante do mundo era o escritor. Acho que, se a pessoa consegue ser um bom escritor, isso é o máximo que uma pessoa pode fazer na vida. Então, colocando o escritor nesse patamar tão alto, eu jamais ia pretender chegar lá.

Publicação

 

Quando eu comecei a escrever para publicar, a minha escrita mudou muito. Eu sempre escrevi diários, anotações. Eu sempre me mantive escrevendo. Mas, quando foi para publicar, parece que a escrita tinha que ser mais veraz, tinha que ter mais veracidade do que o meu diário. A escrita não podia ser usada só para dizer coisas, ela própria tinha que ter uma força, uma estrutura. Eu uso muito a palavra ‘verdade’. A escrita tem que ganhar um tônus quando ela é para os outros lerem. Quando é para você mesmo, é um registro de algo que você sabe o que é, um duplo de algo que você viveu, que você pensou. A escrita de ficção, que você escreve para os outros lerem, não é um duplo de nada, ela está inaugurando ali um espaço, ela está criando aquele espaço, aquela existência dos personagens, aquela história. Então eu acho que ela exige muito, muito mais dedicação e habilidade.

Contos por encomenda

 

Eu sou uma leitora assídua de contos. Mas, na minha cabeça, eu era romancista e eu escrevia os contos como estratégia de divulgação. Uma revista, um jornal encomendava. O romance tem uma coisa que vai te levando. Depois que você inicia, você tem uma briga constante com aquela história, com aquele estilo, com aqueles personagens que você criou, mas você já sabe, pelo menos, em qual massa vai ter que mexer. Você não precisa a cada dia estar reinventando aquilo. E no conto é isso, a cada conto que você começa você tem que criar o mundo de novo. Mas os contos começaram, eu acho, a sair legais, a serem coisas que eu queria fazer melhor, experimentar mais. Eu via ali um caminho que no romance eu não vejo, que é o de você ter que ser muito enxuto. No romance tem a questão do tempo que você demora a ler, a entender qual é a história, a conviver com os personagens, que no conto não tem. Então é como se você fosse obrigado a ser mais denso e preciso ao mesmo tempo.

A construção da narrativa

 

Quando eu vou escrever, eu tenho de falar porquê que a pessoa está contando aquela história. É como se eu sempre tivesse que criar um motivo. Talvez por isso esse tom, às vezes, de depoimento, de fala, de pensamento dos meus personagens. Como se, para dar verossimilhança, eu tivesse que falar que essa história está sendo contada por algum motivo específico. No primeiro livro (Azul e dura), a personagem precisava reavaliar a vida dela para ver como ela iria seguir. No segundo (Não falei), era por causa de uma entrevista. E no terceiro (Antonio), era para falar para o filho do Teodoro a história do Teodoro. E o filho do Teodoro quer saber essa história porque ele vai ter um filho. E é completamente bobo isso, porque eu leio livros em que se conta uma história - e acho maravilhoso - sem que ninguém precise ficar me explicando porquê. Mas é como se o lugar, o ponto de vista do narrador, para mim, fosse muito importante.

Terceira pessoa

 

Eu queria escrever em terceira pessoa. Era um desafio para mim. Eu acho que o ‘eu’ cria um peso que as vezes impede voos mais soltos, porque qualquer transgressão que você faz fica muito ligada ao narrador e não à história propriamente dita. Enfim, eu queria experimentar outras coisas. Então eu criei essa maneira, que era ter um personagem que conta uma história que aconteceu. E aí conta em terceira pessoa. O narrador é o que menos importa. Eu achei que podia fazer isso em Antonio, e saiu tudo ao contrário. Tudo bem, são três personagens que falam sobre uma quarta pessoa, mas o livro acaba revelando muito mais sobre quem fala do que sobre de quem se fala. Então acabou esse ‘eu’ predominando aí de novo. Mas acho que já evoluí um pouquinho. De alguma maneira, o assunto não é necessariamente a pessoa que está falando, apesar de ela se revelar muito ao contar a história do outro.

Peso da palavra

 

Eu acho que, de fato, a gente se constrói através de palavras ou a gente é capaz de se reconhecer porque as palavras existem. Acho que, na verdade, a nossa vida se constrói de muitas outras coisas, mas a gente só é capaz de pegar essas outras coisas, e com isso montar algo que seja compreensível para a gente, porque existem as palavras e porque a gente lida com elas. Por outro lado, as palavras são sempre insuficientes para dar conta de tudo aquilo, ou seja, da alegria, do desespero, enfim, ou até de descrever o sabor da banana, do que é bom ou do que é ruim. Então eu acho que esse conflito entre a insuficiência da palavra e a necessidade absoluta dela, porque é ela que constrói qualquer coisa que você toca, que você entende, talvez seja um ponto de união entre os três romances.

Temas

 

Eu não tenho um projeto literário. Talvez o que eu me imponha em relação à obra seja procurar caminhos diferentes. Mas, quando começo um livro, eu não sei muito bem o que ele vai ser. Por exemplo, o Azul e dura eu queria que fosse sobre a relação da imprensa com o poder, e não tem nada a ver com isso. O Antonio eu queria que fosse uma história em terceira pessoa, não é. O Não Falei eu queria que fosse um depoimento, uma história, que abordasse uma geração que, apesar de ser jovem na época dos Beatles, praticamente não ouvia os Beatles. Isso não foi importante na formação deles, na maneira de ver o mundo, nem nada. Mas o livro não tem nada a ver com isso.

Família e identidade

 

Eu tenho um amigo, o Nuno Ramos, que brinca dizendo que eu transformo qualquer coisa em caso de família. Alguém me pede para escrever um conto sobre um caso de amor e eu transformo num caso de família. E eu acho que tenho isso muito forte. Em Não Falei, por exemplo. Se você descobre alguma coisa que aconteceu na sua família, a sua forma se muda inteira, você tem que descobrir de novo a sua forma, porque o que você pensou que era você não é mais. Eu, pessoalmente, acho que eu sou muito amalgamada com a família e isso é bom e é ruim. É uma coisa que eu percebo como um poder muito grande, que a família exerce sobre mim, mas que eu também, como família, exerço sobre os outros. Enfim, a questão da família e da identidade eu acho que é um assunto pessoal e que passa com muita força para a minha ficção também.

Choque de gerações

 

Eu acho que a geração acima da minha e a acima da acima da minha foram gerações que tiveram objetivos mais claros, no sentido de que tiveram inimigos mais claros do que o que minha geração teve. De alguma maneira, eu sentia que havia muita injustiça com a geração da qual eu fazia parte. Havia uma crença muito pequena de que alguém da minha geração pudesse dar certo, porque eramos todos alienados. Era como se a gente tivesse que fazer muita força para ser bem visto aos olhos de quem nós víamos bem. Mas eu acho que esse tema é algo bem pontual, histórico, que foi muito importante para mim, mas que eu não sinto que prossiga em movimento. É um passado importante, mas não é o que me move a novas descobertas. O que eu acho é que nos dois romances, em Antonio e em Não falei, existe uma crítica a essa geração de cima também.

Educação

 

Em Não falei, a questão da educação, que é muito importante, aparece sob o prisma da traição. Quando você se dispõe a educar pessoas numa cultura diferente da sua, no caso pessoas que vem de famílias analfabetas, por exemplo, ao você alfabetizar essas pessoas você está criando uma distância entre elas e os pais delas que pode ser considerada uma traição, porque é um pouco isso mesmo. Você está deixando de ser alguém, e isso não é só positivo, tem um lado também negativo. O Marcelino Freire tem um conto muito bonito sobre a riqueza de alguém analfabeto, sobre como, ao escrever, você abandona um monte de coisas que você tem e possui, principalmente um adulto analfabeto (“Totonha”, em Contos Negreiros, de Marcelino Freire).

Repressão

 

Quando você apanha, por mais que você esteja certo e o outro cara absolutamente errado, é algo horrível. É horrível ser torturado. É horrível para você, é horrível para o cara que bate, é horrível para o país que tenha criado uma situação dessas. Eu acho uma visão muito pobre do mundo você se orgulhar de ter sido torturado e preso e usar isso como mérito sobre outros que não o foram. É quase uma perversão. E eu acho que a louvação do pessoal que fez parte da luta armada, como se não tivesse havido outro tipo de resistência democrática, é um erro. Houve outros caminhos, que não a luta armada, tão importantes quanto, que foram os que venceram a ditadura no final. Eu acho que eles deviam ser muito mais valorizados do que são.

Política

 

O Graciliano Ramos, quando saiu da prisão, ele era do partido comunista, e pediram para ele escrever um depoimento, ele escreveu Infância. Ele só foi escrever Memórias do Cárcere muitos anos depois. Eu acho isso uma das coisas mais comoventes que tem na história da literatura brasileira. Em Não falei, como era um livro político, eu tinha que falar sobre educação e sobre criança. Não é sobre a ideologia. Eu acho que onde a ideologia está mais presente é na forma como a gente educa, na importância que a gente dá à educação. A ideologia no sentido de partido político, de governo, já é ela institucionalizada, e como briga. Mas a presença dela, que pode ser maléfica ou benéfica, de qualquer maneira, molda a sociedade. Eu acho que são dois temas muito afins. Esse livro foi escrito também numa época em que eu, e muitos brasileiros, estávamos felizes por viver num país onde era possível eleger um operário para presidente. Mas logo isso passou para uma coisa de carisma, de santificação, e isso me deu uma certa revolta.

Crítica social

 

Eu não acho que quem é de uma classe mais alta necessariamente é mais arrogante ou é pior do que quem é de um classe mais pobre, mas é o que eu conheço melhor, que eu conheço mais de dentro, porque eu conheço a mim mesma. Tem muitas pessoas que falam que eu faço crítica a uma determinada classe social. Sim, à medida que eu faço uma crítica a mim mesma. Eu não estou falando de um lugar diferente de onde eu sou. Eu espero que não tenha uma louvação do pobre, acho que não é uma coisa maniqueísta. Como o dinheiro é um formador que cria determinados gostos, determinadas palavras, te dá impressão de que você não consegue se comunicar com pessoas de outra classe. Mas é possível essa comunicação, porque, enfim, acima de tudo, somos seres humanos e compartilhamos 90% do que a gente é, ou muito mais que isso. Então, talvez o que exista mais presente seja esse medo de empobrecimento por estar isolada numa classe, tanto de um lado como de outro.

Próximos projetos

 

Estou escrevendo o roteiro de um filme agora. O Karim Aïnouz foi contratado para dirigir e o mesmo produtor que o chamou, chamou a mim para escrever o roteiro. Mas ele não conhecia o meu trabalho, então eu dei a ele alguns dos meus livros, a gente conversou sobre a história, escrevemos juntos e agora eu estou desenvolvendo o roteiro. As filmagens vão começar no dia 20 de agosto. Na verdade, eu já acabei o roteiro, mas sempre tem uma porção de coisas para consertar. Eu aceitei fazer o roteiro porque eu adoro o trabalho do Karim e esse convite foi uma maneira de reconhecimento do meu trabalho. Acho que ele é um dos melhores que se tem no Brasil, então fiquei muito contente. Aceitei também porque estou com muita dificuldade de escrever o meu novo romance. Está bem difícil, mas é a próxima coisa que eu vou fazer logo depois que eu acabar o roteiro.

Novo romance

 

De novo, são três vozes, na verdade quatro dessa vez. E as vozes estão em tempos diferentes. Uma está em 2040, duas estão em 2010 e uma está em 1995. É um pai, já mais velho, um filho de 22 anos, uma irmã, que também está com 22 anos, e outra irmãzinha que está com 11, mas que também vai escrever no futuro, quando ela já vai estar com 50 anos. Mas acho que eu imaginei uma estrutura tão complicada que eu mesmo não estou me entendendo. Talvez eu vá ter que mudar. Tem coisas que eu escrevi lá que eu gosto bastante, mas não está formando um romance. Eu vou ter que pensar melhor.

Literatura e cinema

 

Eu não senti, até agora, que o trabalho de roteirista influenciou meu trabalho de literatura, mas o oposto acontece muito. Como se eu fosse uma pessoa de literatura que vai escrever um roteiro e então levo para lá tudo o que eu tenho. Por isso eu fico muito irritada quando estou escrevendo um roteiro, porque a escrita do roteiro tem que ser muito pobre, tem que ser muito limpa. Você repete mil vezes o nome da personagem ou o pronome porque não pode ter ambiguidade. Imagine uma coisa que não pode ter ambigüidade. É uma loucura. Não pode ter pensamento interior, porque tudo isso vai ser dado pelas cenas, não pode ser dado pela escrita. Enfim, os dois diretores com quem eu trabalhei tiveram muita paciência comigo, de aceitar a primeira versão e depois me dar tempo para ir limpando, limpando…

Prêmios

 

Para mim foram muito importantes. Alguém muito claramente, muito publicamente, anunciou no megafone: você é uma escritora. Porque, na verdade, todas as áreas que incluem ganhar salário ou ser um empresário e ter lucro têm um parâmetro muito certo para saber se você está tendo sucesso ou não, que é o seu salário estar aumentando, sua empresa estar ganhando mais dinheiro. E o escritor não tem. Um crítico vai falar que você é bom, o outro vai falar que você é ruim ou vai te ignorar. E venda de livro - eu fui editora de livros - não é um bom parâmetro. Tem maus escritores que vendem muito e vendem pouco e bons escritores que vendem muito ou vendem pouco. Enfim, para mim, os prêmios foram muito importantes para me assegurar do meu lugar.

Eventos

 

Funcionam como um reconhecimento. Só que na Flip, por exemplo, como nos festivais em que eu já fui chamada, tem uma coisa gostosa do contato com o público, de pessoas que não me conhecem virem falar que leram o livro. E, às vezes, têm impressões muito frescas porque, como meus livros são muito parecidos comigo, os meus amigos vêm e falam sobre isso, e os críticos falam muito sobre a forma e isso e aquilo, mas, de repente, uma pessoa que não me conhece tem ideias completamente inusitadas sobre o que eu escrevi e isso me alimenta muito, eu fico feliz. Agora, o momento de falar em público é duro, não me agrada muito.

Em bom português

A palavra é insuficiente, mas é o que você tem, você está escrevendo com a sua vida. A língua é formativa de quem você é, então, se ela é mais elástica, eu sou mais elástica.

É mais fácil para ela (imprensa) falar de um autor estrangeiro porque esse autor já chega com o aval de ter feito sucesso ou não lá fora, por ter críticas feitas por tal ou tal pessoa. É mais seguro. No caso do autor nacional, ele é o responsável por dizer se o cara é bom ou ruim.

(Os países de língua portuguesa) têm em comum o instrumento de perceber o mundo. Eu acho que isso é totalmente verdade, eu acho que as dificuldades que a gente tem e as facilidades têm a ver com esse instrumento de perceber o mundo que é a nossa língua.

Acho que a questão de você tentar manter unificada uma língua tem muito a ver com poder e eu isso não está errado. A cultura de língua portuguesa já tem tão pouco espaço no mundo, se ela se subdividir em muitas…

No espaço de 100 anos, realmente, se você não mantiver alguma unidade linguística, acho que você passa a ter outra língua.

A linguagem escrita precisa acompanhar, de alguma maneira, a evolução da maneira como as pessoas se expressam. Então precisaria haver uma revisão ortográfica. Talvez ela pudesse ter sido feita em cada um dos países, mas se escolheu fazer uma comum. Eu acho que a escolha de ser a comum é correta. Agora, se foi mudado o que tinha que mudar ou não, já é outra discussão.

Vídeo

 

1. Para o leitor que nunca leu um trabalho seu, qual dos seus livros você indicaria e por quê?

2. Poderia ler um texto seu?

[Entrevista publicada no Portal Cronópios em 17 de agosto de 2010, às 22:19:00]

A prosa de um poeta sempre pronto a morrer de amor

julho 12, 2010

Com um modo bastante peculiar de se apropriar da língua portuguesa, o escritor português Valter Hugo Mãe representa uma benéfica e oportuna lufada de vento

Valter Hugo Mãe é poeta. Começou a escrever poesias muito cedo e publicou seu primeiro livro de poemas aos 24 anos, em 1996. Mas foi com os seus romances que ganhou maior visibilidade e conquistou público e crítica. 

Parte do encanto talvez se deva ao modo como o autor utiliza a língua portuguesa, moldando palavras e frases para contar uma história, trabalhando com o mesmo cuidado e zelo tanto a forma como o conteúdo. Uma curiosidade: sempre em letras minúsculas. 

Há em suas histórias uma mistura de violência e doçura que surpreendem o leitor a todo instante. E, por mais improvável que pareça, muitas vezes elas ocorrem simultaneamente. É a agressão que revela o afeto. 

Seu primeiro romance foi “o nosso reino”, publicado em 2004 e narrado por Benjamim, um menino que queria ser anjo. Pela voz da criança, uma crítica à igreja e a uma espécie de religiosidade destrutiva. 

Depois, “o remorso de baltazar serapião”, vencedor do Prémio José Saramago de 2007. Nesse romance a experimentação da língua se torna ainda mais forte e ela se transforma numa grande aliada do autor para jogar o leitor num universo violento e cru, onde a comunicação se faz aos solavancos e homem e animal se aproximam e confundem. O livro é também um alerta e uma crítica à violência praticada contra as mulheres. 

Em “o apocalipse dos trabalhadores” é Maria da Graça, faxineira, quem nos revela sua história sua vida, seus amores, suas traições e mazelas. E assim o autor explora a situação do trabalhador português não-qualificado, enveredando pela questão dos imigrantes e da sua difícil adaptação. Mais uma vez, o papel da mulher na sociedade portuguesa atual é explorado. 

Seu livro mais recente é “a máquina de fazer espanhóis”, publicado no início deste ano, em Portugal, que tem no octogenário senhor Silva seu personagem principal e, por cenário, um asilo para idosos. É o senhor Silva quem compartilha com o leitor sua dificuldade em enfrentar a velhice e seus desdobramentos. É também pelo olhar, e pela memória, dele que acompanhamos o desenrolar da história recente de Portugal e sua reflexão sobre a identidade portuguesa. 

Em comum, todos os seus romances trazem personagens sempre dispostos a morrer de amor, seja pela humanidade, seja pela pessoa amada, e vêm carregados de referências e homenagens a personalidades do mundo das artes, em especial, atuais ou não. 

Em 2008, publicou, pela Cosmorama, uma coletânea de poemas intitulada “Folclore íntimo”, reunindo mais de 10 anos de produção poética. 

Valter Hugo Mãe virá ao Brasil no próximo mês de agosto para participar da Bienal do Livro de São Paulo e lançar “o remorso de baltazar serapião”, o primeiro dos seus romances a ser publicado no país, pela Editora 34. 

Entrevista 

Sissa: Você começou escrevendo poesias. Como passou da poesia à prosa? 

Valter: Comecei a escrever muito cedo. Senti sempre uma propensão muito natural para as palavras e atravessei a adolescência a escrever montanhas de poemas, a dedicar poemas a todas as pessoas que eu conhecia e a sofrer de amor pela literatura. Perspectivei sempre essa hipótese de um dia ser escritor a sério, ter livros editados, embora não acreditasse muito que uma coisa tão maravilhosa pudesse acontecer comigo. Eu acabo por publicar meu primeiro livro de poemas em 1996, tinha eu 24 anos. E a partir daí eu passei 8 ou 9 anos a publicar apenas poesia, convencido de que seria um poeta para sempre e apenas um poeta, até me surpreender escrevendo meu primeiro romance. 

Sissa: Como você chegou a esse romance? 

Valter: Eu estava a tirar um mestrado e precisava de escrever uma tese sobre a capacidade visual dos textos. A dada altura, não conseguindo estudar e não conseguindo escrever o meu trabalho de tese, comecei a desenvolver uma historia que eu achei que fosse resultar num conto, mas que foi crescendo. As personagens foram se impondo de alguma forma até o texto se transformar no meu primeiro romance. Eu precisava de fugir da angústia de ter de estudar e não conseguir estudar e fui parar a um outro patamar de criação e envolvimento com o texto.

Sissa: Como você trabalha a linguagem e qual a importância disso? 

Valter: Eu creio que o meu percurso na escrita vem de uma natureza qualquer que me caça mais do que outra coisa. Eu não sou um caçador, no sentido de que eu não procurei um fraseado, não saberia procurar. Encontrei ou fui um pouco encontrado por um tipo de expressão. Eu nunca senti demasiada angustia da página branca nem nunca estive demasiado tempo a procura daquilo que eu queria fazer. O que eu queria fazer foi sempre uma decorrência de uma natureza qualquer que existe e que se impõem. E por isso esse trabalho de linguagem, e, sobretudo, se calhar, levado ao extremo com o livro “o remorso de baltazar serapião”, foi algo que veio ter comigo quase sem esforço. Subitamente, a partir da idéia de escrever um livro, passada a Idade Média, e acerca de uma família com alguma tendência bestial, eu achei que a linguagem devia de se estragar. E eu estraguei a linguagem e o estrago foi feito logo de arranque.

Sissa: Ainda falando sobre “os remorso de baltazar serapião”, como foi esse processo de ‘destruição’ da língua? 

Valter: A língua caminha nesse sentido de deturpação, de destruição. Sobretudo no que diz respeito às mulheres, porque é um livro que procura ostentar a violência a que as mulheres foram sempre sujeitas. Por isso é que o livro a todo momento nega a voz das mulheres, repudia essa voz como se a voz das mulheres viesse do diabo ou como se ela fosse simplesmente burra. Por isso, todo esse exercício de linguagem, na forma como o romance está escrito, pretende aludir a essa deturpação da comunicabilidade.

Sissa: Como você escolhe seus temas?

Valter: Eu procuro sempre algo que me magoa, algo que eu preciso de entender melhor e talvez encontrar uma apaziguação qualquer. Como se fosse possível usar os livros como método de aprendizagem, como grandes oficinas de estudo para aclarar conceitos e, sobretudo, para definir melhor quem são as pessoas que habitam o mesmo mundo que eu. É por isso que meus livros, mesmo que atravessem momentos de maior ternura ou de maior beleza, têm sempre uma plataforma de agressão ou de uma violência muito grande. Eu diria que “o nosso reino” é sobre uma certa tirania da religiosidade ou da espiritualidade que, levada ao extremo, pode ser castradora, obsessiva e cegante. “o remorso de baltazar serapião” trata da violência cometida sobre as mulheres. “o apocalipse dos trabalhadores”, da questão laboral e dessa aventura de se viver no limiar de uma certa pobreza, de uma certa simplicidade, até de uma simplicidade cultural. “a máquina de fazer espanhóis” aborda a questão da terceira idade e a iminência da morte. E agora estou a escrever sobre a sexualidade. É a primeira vez que abordo o tema diretamente: a questão do desejo e a ofensa que o desejo às vezes parece revestir, como se desejar alguém pudesse ser imediatamente uma agressão. Por isso lida com todo tipo de preconceito, todo tipo de excesso.

Sissa: Em todos os seus romances, seus personagens parecem sempre dispostos a morrer de amor. O amor é seu grande tema?

Valter: Eu escrevi um livro de poemas chamado “Resta-me a alegria”, que dediquei à Adriana Calcanhoto, em que digo alguma coisa como “só lentamente se deve morrer de amor”. Ele apresenta um pouco esse culto de um sentimento amoroso muito dedicado e muito disponível, que aceita essa longa travessia das dores em prol desse sentimento maior que é amar alguém. E isso sou eu, dos pés à cabeça.

Sissa: Como você vê o papel da crítica social nos seus romances, especialmente aquela que envolve as mulheres?

Valter: Há em todos os meus livros um tom crítico que parece resultar, para muitos leitores, numa provocação. Mas eu acho que isso tem, sobretudo, a ver com os temas. Os temas, sendo fortes, vão sempre mexer com os melindres e com a sensibilidade de cada leitor. Agora, eu sou mais feminista do que a maior parte das mulheres. Muitas mulheres são profundamente machistas e passam esse machismo na educação que dão aos seus próprios filhos. Nos meus livros eu tenho sempre a tendência para espicaçar as minhas leitoras, para chamar a atenção delas para que elas próprias reclamem o seu espaço de direito, seu espaço de dignidade. Se nós quisermos ser cruéis, podemos ver as mulheres ainda no mundo de hoje como homens honorários. Quando as mulheres acedem a alguma qualquer glória, dá a sensação de que lhes foi permitido honorariamente serem um homem. Mas, depois, para todas as coisas do cotidiano, as mulheres são imediatamente desrespeitadas porque há todo um desnível, digamos assim, entre a figura do homem e a figura da mulher. E eu não consigo deixar de acusar isso e sobretudo de instigar as mulheres à revolução.

Sissa: Em seus romances parece haver sempre, de forma explícita ou não, uma espécie de desafio a deus. Como você vê a questão da religiosidade? 

Valter: Eu não consigo afastar a imagem desta personagem pairante, invisível, que será deus, que, podendo não existir, parece ao mesmo tempo estar em todo lado e ser inevitável depararmo-nos com a necessidade de o definir ou de o entender ou de o catalogar. Eu continuo a precisar de entender onde é que estou, onde é que as minhas personagens ficam e onde é razoável eu estar. Eu fui criado, como eu penso que a maioria dos portugueses, numa cultura e numa família católica, freqüentei as missas até o meus 10 ou 11 anos e tive, durante muito tempo, uma espécie de religiosidade de medo. Seria incapaz de pensar ou de fazer alguma coisa errada segundo os princípios católicos. Não significava que acreditasse, tinha era medo de não acreditar. Se eu deixasse de acreditar e afinal existisse alguma coisa, minha alma seria imediatamente fulminada e eu iria parar no inferno. Esse medo fez-me criar uma certa manutenção espiritual daquela religiosidade até chegar ao ponto em que foi insuportável. Neste momento eu não recuso alguma espiritualidade, mas não aceito a transcendência. Acho que não existe vida além da morte e não existe deus obviamente. E, sobretudo, o que me leva a recorrentemente pegar no tema é que eu acho que a igreja católica é uma instituição multimilionária que existe com fins absolutamente perniciosos. E por isso sou profundamente avesso à igreja. Não sou anticristo, mas sou anticlerical. 

Sissa: O espaço físico no qual você situa seus romances começa indeterminado até chegar a Portugal, que, em “a máquina de fazer espanhóis”, é peça fundamental do romance. Por que essa opção? 

Valter: Nos meus primeiros romances eu fui talvez disfarçando, indefinindo, o lugar, e tem uma razão para isso: os dois primeiros livros são livros de aprendizagem, de descoberta do mundo. Para todos os efeitos, é uma criança e um jovem ainda que nos contam as histórias. E são as percepções mais básicas, digamos assim, são dois anti-heróis, são dois sujeitos absolutamente desgraçados que propendem para uma infinita tristeza. Achei interessante não situar demasiado exatamente porque eu acho que as crianças não estão situadas. As crianças crescem em qualquer lugar e qualquer lugar vai ser o mundo delas. Vai ser, inclusive, o mundo inteiro. E só mais tarde, só a partir de “o apocalipse dos trabalhadores”, é que existe essa percepção, essa consciencialização do coletivo. O coletivo já não apenas percepcionado por essas impressões mais básicas dos primeiros livros, ou das primeiras personagens, mas o coletivo já percepcionado por elementos mais políticos, sociológicos, culturais propriamente ditos. E isso culmina de facto com “a máquina de fazer espanhóis”, que é, no fundo, um elogio à terceira idade e aos mais velhos como um reduto, como uma acumulação de um conhecimento que vai crescendo, que é todo ele um patrimônio.  

Sissa: Qual é a sua relação com as artes plásticas e a música? 

Valter: Muito forte. Eu cresci a achar que talvez pudesse ser pintor porque gostava de desenhar, desenhava muito e desenhava mais ou menos bem. Depois vivi aquele fascínio natural pela música. Eu acho que todas estas gerações recentes acabaram por ser levadas a adorar a música e o cinema, por exemplo. Sempre achei que talvez quisesse envolver-me na música, ser músico, cantar, tocar alguma coisa. E tudo isso foi misturando, misturando até eu perceber que, mais forte do que querer, é ser alguma coisa. E eu, a certa altura, tive mesmo que ser escritor. Acho que é a única coisa que eu sei fazer. Se eu fizer alguma coisa bem, será escrever. A cantar sou um bocadinho esquisito, a desenhar sou um bocadinho esquisito. 

Sissa: Qual a importância dos prêmios literários? 

Valter: Nem todos os prêmios serão assim, mas o Prémio Saramago foi importantíssimo para mim. É um prêmio importantíssimo em Portugal. É dos poucos que de facto influem na dimensão de um escritor, na visibilidade, nas vendas. Tem uma influência imediata, direta, inegável. Eu sinto-me infinitamente grato por me terem entendido merecedor dele. Inclusive, encaro esse prêmio como uma manifestação de grande generosidade da parte de José Saramago, porque, sendo o único prémio Nobel da Língua Portuguesa para a literatura, podia perfeitamente instituir um prémio para todo tipo de escritor e fazer dele, não só um mecanismo de prestigiar o escritor, mas de prestigiar o patrono. Mas ele escolheu dar o prémio a escritores rigorosamente até 35 anos e fazer do seu prémio um empréstimo generoso do seu próprio nome para que a carreira, para que o percurso de novos autores seja de alguma forma facilitado, digamos assim. E de facto não podia acontecer de melhor maneira. Eu acho que todos os vencedores do Prémio Saramago tiveram, e têm tido, oportunidades fabulosas. 

Em bom português… 

“Por mais diverso que seja o mundo visto a partir do Brasil, a partilha de uma mesma língua permite-nos uma sintonização, uma percepção do que será esse mundo muito maior do que a partir de qualquer tradução.”

 “No que diz respeito ao Brasil, é absolutamente fascinante perceber como é que uma mesma língua pode amadurecer integrando outras referências num espaço diverso.” 

“Não é por acaso que, quando me perguntam qual é o romance português que eu considero o mais brilhante de todos os tempos, eu digo que é o “Grande Sertão Veredas”, do Guimarães Rosa. Eu acho que o Guimarães Rosa o que fez foi libertar de uma forma absoluta o português.” 
“Nós, que viemos de uma língua que, não sendo minoritária no mundo, é considerada uma língua periférica, sabemos que temos uma dificuldade acrescida na universalização e na chegada a um público de países diferentes. Mas as coisas vão acontecendo lentamente.” 
“O acordo ortográfico, em muitas coisas, é extremamente válido. As letras mudas que não se leem e não têm influência na palavra devem cair, mas é um pouco permissivo demais. É um acordo que acorda pouco e, ao acordar pouco, acaba por ser uma permissão para todas as coisas.” 
Vídeos 

Para o leitor que nunca leu um trabalho seu, qual dos seus livros você indicaria e por quê? 

Poderia ler um texto seu? 

[Entrevista publicada no portal de literatura Cronópios - www.cronopios.com.br - em 27 de julho de 2010.]

As travessias de um navegador nada solitário

maio 23, 2010
O olhar do escritor timorense Luís Cardoso sobre o seu país pelo viés da literatura
 

Os mais de 10 mil quilômetros que separam o Brasil de Timor-Leste podem ser vencidos num piscar de olhos, ou melhor, no virar de páginas. Basta ter em mãos um dos romances de Luís Cardoso. O autor timorense, radicado em Portugal, traz seu país – sua geografia, sua história, sua gente – plasmado ao texto.

A infância, na ilha de Ataúro, os estudos no colégio de Soibada, com seus professores catequistas, a partida para Portugal em busca de um futuro impossível em Timor, o confronto de culturas e realidades tão distintas, como as da Metrópole-Colônia, e a difícil adaptação estão em Crónica de uma Travessia, seu romance de estréia.

Apesar do caráter autobiográfico do texto, não espere encontrar um tom confessional. Não é disso que se trata. Luís Cardoso parte da sua própria história para apresentar a história do Timor-Leste. Confunde a sua trajetória com a de muitos outros timorenses. Parte dele mesmo para contar uma história coletiva e, talvez, exorcizar alguns fantasmas.

O texto de Luís Cardoso surge como a materialização de uma voz, ou de várias delas. Em alguma medida, parece um registro ditado de modo instintivo. A língua é moldada pelo ouvido para que dê vazão a memórias, delírios, sonhos, fatos, ações. Frases se repetem ao longo do discurso até que seu conteúdo se esgote. No texto, palavras de uma outra língua se mesclam ao português aproximando o leitor de uma realidade diversa.

E mesmo a realidade, aqui, parece ter outro sentido. Surge transformada. O tempo e o espaço ganham novas dimensões em obediência às crenças locais, à cultura popular que convive com a nova religião trazida por Portugal, o catolicismo. A igreja aparece como um forte elemento sócio-econômico acima de tudo, canal de acesso à educação e ao mundo além da ilha.

Tudo isso é bastante evidente em Olhos de Coruja Olhos de Gato Bravo e depois em A Última Morte do Coronel Santiago, romances que se complementam. O protagonista deste último, Lucas Santiago, é supostamente o autor do livro anterior. Essa confusão entre Lucas Santiago e Luís Cardoso mais uma vez remete para o livro de estréia e contribui para que esses três romances sejam tidos como uma trilogia.

Requiem Para o Navegador Solitário é o último romance publicado até o momento por Luís Cardoso. Como pano de fundo, a ocupação do Timor-Leste durante 2ª Guerra Mundial. No palco, Catarina, a protagonista, espera por seu príncipe encantado com olhos postos no mar.

Assim o autor constrói suas narrativas. Misturando-se, de certa forma, aos seus personagens. Ora se aproxima, ora se afasta, mas sem nunca deixar de pisar o chão de Timor-Leste. O que faz das travessias de Luís Cardoso viagens nada solitárias, pois parece carregar sempre todo um país.

Sissa: Quando você começou a escrever?
Luís: Eu fiz a literatura muito tarde. Foi precisamente numa altura em que, no Instituto Superior de Agronomia, onde eu andava a estudar, dois colegas meus, o José Eduardo Agualusa e o José Riço Direitinho, começaram. Um dia o Agualusa pegou num escrito meu e achou que devia levar para a editora. Levou e a editora decidiu publicar. Assim começou minha fase oficial na literatura. Agora, se pensamos na literatura como o começo da escrita de qualquer coisa, então começou muito mais cedo. Em Timor, normalmente, os portugueses, quando vão para lá, nas suas imigrações, fazem sempre uma padaria. No Brasil, julgo que seja a mesma coisa. No caso de Timor, havia um padeiro português que tinha um filho, o Vasco, que era meu colega na escola. Normalmente se faziam redações na escola. Então eu fazia sempre duas versões, uma para ele e outra para mim, e ele pagava-me com pão com manteiga. Julgo que a partir daí comecei, pela primeira vez, a ganhar dinheiro com a literatura. Mas isso atiçou o gosto, sobretudo, pela ficção, porque eu era obrigado todas as vezes a imaginar duas versões, uma para ele e outra para mim. Depois foi a fase quando a gente começou a escrever para as namoradas cartas de amor. Nós, antigamente, utilizávamos as cartas de amor. E depois comecei a escrever alguns contos, que ficaram na gaveta e nunca publiquei. Talvez algum dia volte a publicar, não sei.

Sissa: Quando publicou seu primeiro livro, você não tinha a intenção de se tornar escritor. E agora?
Luís:
Quando publiquei a Crónica de Uma Travessia, eu achava que ficava por aí. Como, dizem, toda a gente na vida tem que escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho, achava que devia ficar por aí e restava-me fazer outras coisas. Mas, depois, a crítica literária foi muito boa, ganhei um prêmio com o livro e, a partir daí, a editora também começou a dizer “bom, tens uma voz e devias dar continuidade a essa voz”. Eu não assumo bem essa condição de escritor porque ser um escritor exige, muitas vezes, um esquecimento de várias coisas na vida para nos dedicarmos apenas a essa questão da paixão, que é a escrita. Eu não faço isso. Tenho outras paixões na vida para além da escrita. Por exemplo, neste momento, tenho uma filha, que é a minha paixão. A escrita surge como um complemento.

Sissa: Por que a opção de estrear com um romance assumidamente autobiográfico, como Crónica de uma travessia?
Luís: Seria o único livro da minha vida. Foi quase como tentar explicar um bocado de Timor para as outras pessoas através da literatura, sem ser através da política. Na altura, eu desenhava um papel político pelo Timor, era o representante da resistência timorense em Portugal. Portanto, era um complemento do meu trabalho político explicar um outro Timor às pessoas, sobre seus mitos, seus ritos, sua história, sobre as travessias. E podendo começar por contar através de uma história pessoal, que era a minha.

Sissa: Timor está sempre muito presente nos seus romances. Existe um projeto literário independente de Timor?
Luís:
Escrever um livro parte sempre de uma necessidade interior. Às vezes, você precisa exteriorizar alguma coisa que te move. No meu caso, é a questão de Timor. Exteriorizo tudo aquilo que me vai na alma relativamente a Timor nos meus livros e nunca escondi isso. Obviamente há muita gente que vai descobrindo coisas – eu não sou uma pessoa de segredos – dentro dos meus livros. Lembro bem, quando estive em Timor para divulgar Requiem Para um Navegador Solitário, que um colega meu virou-se para mim e disse “em todos os teus livros está lá uma pessoa, que é tua amiga, tu conheces, e que todo Timor conhece”. Era uma pessoa que foi muito particular, era minha namorada na altura, e que foi fuzilada pelos indonésios quando da invasão. Eu fiquei muito impressionado. Como ele descobriu isso quando no fim de contas nunca tive essa intenção? Julgo que há uma força interior, há uma coisa que move cá dentro de nós e que faz que a gente muitas vezes escreva os livros e ponha lá dentro coisas inconscientes.

Sissa: A sua ficção corre lado a lado com a sua história de vida. Como lida com essa proximidade?
Luís:
Não me escondo. A pessoa que fala aqui consigo é a mesma pessoa que escreve os livros. Os mesmos sentimentos que exponho aqui são os mesmos sentimentos que exponho nos livros. Eu estive agora em Natal, falei com as pessoas, fiz uma exposição durante uma conferência, expus-me totalmente. Não escondo nada o fato de não haver essa duplicidade entre o escritor e a pessoa. Eu sou a mesma pessoa, que às vezes escreve, às vezes faz outras coisas.

Sissa: E quanto aos seus personagens? Qual a relação entre o Lucas Santiago, protagonista de A Última Morte do Coronel Santiago, e o Luís Cardoso?
Luís:
Nós, muitas vezes, quando escrevemos uma biografia, colocamos lá coisas que gostaríamos que tivesse acontecido conosco. Quando escrevemos outras personagens, outras histórias, colocamos lá muito de nós. Eu julgo que outros autores, por mais que digam que não, fazem isso. Obviamente não escondo esse fato. Muitas pessoas identificam o Lucas Santiago com o Luís Cardoso.

Sissa: Por que a opção de dar voz a uma personagem feminina, em primeira pessoa, em Olhos de Coruja Olhos de Gato Bravo e Requiem Para o Navegador Solitário?
Luís:
Naturalmente. Às vezes vamos escrevendo e naturalmente surgem essas vozes. Isso acontece muito numa partitura musical, tem a ver com a musicalidade. Nós, às vezes, lemos uma determinada partitura e aparecem outras vozes, outros instrumentos, sem ser apenas o instrumento principal. Todas as vozes ao mesmo tempo confluem. À medida que vou escrevendo, tudo me acontece assim naturalmente. Não faço um projeto. Vou escrevendo e tudo acontece naturalmente.

Sissa: Você começa uma história sem saber como ela vai acabar?
Luís:
Isso mesmo.

Sissa: Como você trabalha a linguagem? Qual a função da repetição de frases ao longo do texto?
Luís:
Há muitas frases que vêm a nossa cabeça e vamos repetindo sempre ao longo da vida. Isso acontece comigo também. Eu faço uma escrita muito oral. Quando escrevo, tenho que ler em voz alta. A primeira coisa que tenho que acertar é o encadeamento das palavras dos sons. Depois, provavelmente, o encadeamento do texto. Muitas das coisas que eu faço, por exemplo, a repetição das palavras, não é uma simples deambulação lingüística, são mesmo necessárias no contexto, porque eu preciso de repetir essas frases quando conto uma história. Tenho a necessidade de repetir esse refrão.

Sissa: O que significa ser um escritor timorense? Essa denominação o incomoda?
Luís:
É uma associação imediata hoje em dia, quer dizer, o Luiz Ruffato será sempre um escritor brasileiro, o João Ubaldo Ribeiro será sempre referenciado como o autor de Viva o Povo Brasileiro. Portanto, há sempre uma associação imediata. Eu quero dissociar-me dessa questão. Gostaria de ser ‘escritor’. Porque é uma coisa que eu faço sem ser por vocação, sem ser por um certo romantismo por causa de Timor. Faço porque me apetece fazer, me apetece contar histórias sobre Timor. As pessoas é que fazem as associações. Se isso me incomoda? Incomoda. Incomoda porque me torna o escritor oficial de Timor. Quando querem um escritor oficial de Timor para ir a uma conferência sobre Lusofonia, lá vai o Luís Cardoso. Gostaria que me convidassem mais para falar dos meus livros. Normalmente quando lá vou me perguntam certas coisas e querem respostas de um diplomata, de um político sobre o futuro da língua portuguesa em Timor. Falam de tudo menos dos meus livros.

Sissa: O Timor-Leste tem uma história bastante turbulenta, marcada por conflitos e violência. Em alguns momentos você parece utilizar a ironia para superar esses episódios. Qual é o papel do humor no seu texto?
Luís:
Contar a história de Timor é contar uma violência tremenda, por isso todo o encadeamento de histórias de violência. E contar essas histórias de violência de uma forma nua e crua é de uma violência tremenda também, então eu preciso de certo apaziguamento interior, que me é dado principalmente pela ironia. Faço isso de uma forma irônica. Mesmo no cotidiano, utilizo a ironia para rir-me de mim e das coisas que me acontecem. Eu faço isso como forma de compensação.

Sissa: Você retrata um imaginário popular muito rico, onde religião e misticismo se confundem. Mas, de certo modo, parece haver uma divisão de papéis entre homens e mulheres. Como se dá isso?
Luís:
De facto, podemos pensar as coisas desta forma: há um lado social, que é o lado da igreja católica, e depois um lado das crendices que cada um pratica nas suas casas. E em casa, normalmente, quem manda, sobretudo, são as mulheres. São elas que mantêm os rituais e os ritmos próprios da casa, da família, das alianças, das tradições. São as mulheres que fazem esse trabalho todo em casa. Portanto, há dois mundos. Um mundo que é o social, o da igreja católica, e um mundo muito privado, particular, íntimo, que tem a ver com as crenças animistas timorenses. E isso está muito mais relacionado com as mulheres, que cumprem, de uma forma muito regrada, esses rituais.

Sissa: É possível encontrar, em meio a essa diversidade de culturas e influências que marcam a história do país, uma cultura própria do Timor?
Luís:
Timor é um conjunto de várias nacionalidades. Portanto, quando falamos de Timor, falamos de grupos diferentes que convivem num mesmo espaço territorial que se chama Timor-Leste. Temos que mostrar isso, que é possível essa convivência dos povos – que muitas vezes também torna-se violenta, como nos últimos tempos -, mas que é possível. Temos que mostrar essa diversidade cultural, étnica e linguística para mostrar que Timor é tudo isso, essa amálgama toda. E mostrar que é possível essa amálgama tornar-se um País, um Estado, uma Nação.

Sissa: É possível se falar em literatura timorense hoje?
Luís:
Existe uma literatura oral timorense muito preponderante, muito forte. Só que é preciso trazer essa literatura oral para a literatura escrita, e isso quem faz precisamente são os escritores. Eu faço da minha forma, da minha maneira. Agora, existem outros escritores, mas, sobretudo na área de poesia. É preciso que os timorenses, a todo momento, decidam fazer isso. Eu decidi fazer. Não sei o que é que pode acontecer, mas é preciso fazer. Depois veremos qual é o resultado.

Sissa: Isso se deve às deficiências do sistema educacional?
Luís:
Sim. Devido ao sistema colonial, em que muito pouca gente teve acesso ao ensino, não havia essa possibilidade durante muito tempo. Os nossos antecessores também não fizeram. Alguns que poderiam fazer isso foram mortos durante o período do genocídio, eram membros da resistência timorense, eram os intelectuais que foram mortos durante a guerra, portanto, também não tiveram essa oportunidade. Provavelmente eu, se não vivesse aqui em Portugal e estivesse lá, não teria escrito os livros também.

Em bom português…

“Em tempos, fui a uma conferência de literatura comparada na Nova Caledônia. Estive lá durante 15 dias sempre a falar em francês. Às tantas, tive necessidade, como se fosse mesmo uma necessidade vital, de compartilhar a língua que eu falo e escrevo com outra pessoa. Então trouxeram uma senhora suíça que estava lá a viver e que tinha sido casada com um português para falar comigo.”

“De facto, são as particularidades todas da língua portuguesa que me fazem ficar fascinado com ela. Porque a língua portuguesa falada por um angolano ou por um brasileiro é completamente diferente.”

“Eu, quando vou ao Brasil, fico encantado de falar com os meus amigos brasileiros porque descubro sempre palavras novas, de muito carinho, com que eles tratam as pessoas.”

“O Agualusa tem uma frase que diz ‘os brasileiros tornaram a língua portuguesa uma língua feliz’. Enquanto a língua portuguesa em Portugal é uma língua fechada, de saudade, triste. Eu concordo com isto.”

“Eu sou favorável ao acordo ortográfico, principalmente no que toca à questão de universalizar muitas coisas que acontecem. Por exemplo, os documentos oficiais e de acordos internacionais, que só podem ser feitos numa única língua, uma escrita. Obviamente, os escritores vão continuar a escrever como sempre escreveram.”

VÍDEOS

Poderia ler um texto seu?

Para o leitor que nunca leu um trabalho seu, qual dos seus livros você indicaria e por quê?

Poderia ler trecho de um livro ou poesia de algum outro autor que você admire?

Luiz Ruffato e o artifício da palavra

fevereiro 25, 2010

Há um gosto de novidade no trabalho de Luiz Ruffato. Não só pelos temas que propõe, mas pela forma de narrar. O encadeamento das palavras e a velocidade do texto ajudam a compor um universo bastante próprio: do operariado no interior de Minas Gerais, na segunda metade do século XX. Realidade, mais que conhecida, vivenciada.

Como escritor profissional, condição destacada pelo autor, a literatura surge como opção livre e consciente. Assim também seu projeto literário. Com o desafio autoimposto de, pela primeira vez, ter o trabalhador de classe média baixa como personagem central, Ruffato passou a buscar o meio adequado para construir suas histórias: “Seria uma contradição se eu fosse escrever livros sobre o universo que eu queria tratar usando a forma do romance burguês”.

Foram 15 anos de pesquisa, experimentação, reflexão e trabalho para encontrar o equilíbrio entre forma e conteúdo. O resultado dessa empreitada está no premiado romance “Eles eram muitos cavalos”, publicado em 2001. O livro, uma colagem de cenas e histórias. Fragmentos que, justapostos, retratam uma cidade, uma sociedade, um país. Vozes e ruídos se confundem. E desse emaranhado surge a narrativa.

A partir daí, o autor passa a se dedicar ao “Inferno Provisório”, que reúne, até o momento, quatro títulos: “Mamma, son tanto felice”, “O mundo inimigo”, “Vista parcial da noite” e “O livro das impossibilidades”. O quinto volume será lançado ainda este ano, mas não deve ser o último, pois, como lembra Ruffato, o “Inferno Provisório” é uma obra aberta e em progresso.

Longe do romance tradicional, que, em geral, se baseia em um, ou em alguns poucos personagens, Ruffato trabalha com um conjunto deles. Um personagem secundário numa história pode se tornar principal em outra e vice-versa. Ou mesmo nunca mais aparecer. Não há uma linearidade evidente. Há trechos, pedaços de histórias particulares ali reunidas. Muitas vezes incompletas. Ao leitor só é dado enxergar um ou outro momento da vida deste ou daquele personagem. O resto são lacunas, espaços vazios, ausências.

De modo geral, os personagens do “Inferno Provisório” parecem condenados. Divididos entre partir ou permanecer onde estão – nesse caso em Cataguases, no interior de Minas Gerais -, nenhuma alternativa parece capaz de resgatá-los. Miséria, violência, falta de perspectiva, exclusão, preconceito, inadequação, deslocamento são temas recorrentes. Mas, como explica o autor, se à primeira vista a aparência é de ruína pode não ser esse o verdadeiro quadro. “Não há nada mais parecido com uma ruína do que uma casa em construção.”

Em 2009, Ruffato publicou “Estive em Lisboa e lembrei de você”, dentro do projeto “Amores Expressos”, da Companhia das Letras. Nesse romance, o autor conta a história de Serginho, mineiro, também de Cataguases, que resolve tentar a sorte em Portugal.

A ambição do autor é, por meio do seu projeto literário, compreender os últimos 50 anos da história brasileira. Para ele, a literatura precisa ter uma função. Deve, em alguma medida, modificar as pessoas. É o que Ruffato vem fazendo. Difícil ler suas histórias sem refletir. Fechar o livro, guardar na estante e mudar de assunto.  

Sissa: Qual é o seu projeto literário?

Luiz: Eu passei pelo menos uns 15 anos tentando compreender o que seria meu projeto literário. Eu não queria simplesmente escrever. Para mim, escrever não é uma necessidade. É uma opção que eu fiz na minha vida e eu tive a oportunidade de fazer uma opção consciente. O primeiro momento foi me perguntar sobre o que eu queria escrever. Cheguei à conclusão de que eu queria escrever sobre coisas que eu conhecia. E eu conhecia bastante bem o universo da classe operária, o universo da classe média baixa que é o universo onde eu nasci, onde eu vivi a maior parte da minha vida. Decidi escrever sobre isso. A segunda questão, para mim fundamental, era descobrir ‘como’. Fui à tradição da literatura brasileira para ver quem escreveu sobre esse tema, esse universo, e me apoiar nesse passado para eu poder escrever. E eu me surpreendi, porque isso não existe. A figura do operário, do trabalhador urbano. Tem muito bandido, bandido você pode escolher onde quiser. Tem muita classe média. Mas não tem trabalho, ninguém trabalha na literatura brasileira. Tive que encontrar um caminho próprio. Eu fui procurar. Tinha que encontrar outra maneira. Se eu fosse escrever sobre classe média baixa, sobre trabalhador urbano, sobre operário, eu não poderia usar a forma do romance burguês, porque ela, evidentemente, tem um sentido claro. Ela foi criada, inventada, para dar uma visão de mundo, para dar o depoimento de uma classe, de uma classe que era revolucionária. O romance nasce dessa necessidade. Eu achava que seria uma contradição escrever livros sobre o universo que eu queria tratar usando a forma do romance burguês. Aos poucos, eu fui descobrindo que havia uma tradição de, vamos chamar, a grosso modo, de “anti-romance burguês”. No mesmo momento que nasce o romance burguês, nasce o antirromance burguês. São autores que colocaram em xeque a própria forma do romance. Na verdade, quem me orientou nessa busca, nessa procura, foi o Machado de Assis. Eu fui entendendo que existe essa possibilidade, de se colocar em xeque a própria forma do romance. Então escrevi meu primeiro livro, meu segundo livro e vi que não era isso ainda o que eu queria fazer. Havia ali alguma coisa que eu tinha intuído, mas que não era ainda exatamente o que eu queria. E eu só descobri a forma mesmo no “Eles eram muitos cavalos”, quando eu compreendi que poderia escrever um romance que fosse um não romance e que eu poderia trazer para a literatura linguagens que não são propriamente literárias. Aí sim, a partir de “Eles eram muitos cavalos”, eu pude desenvolver meu projeto literário, que era o de escrever uma espécie de tentativa de compreensão da história brasileira dos últimos 50 anos por meio de uma visão da classe média baixa, do operariado. Por isso que eu chamo de projeto. Todos os meus livros estão dentro desse projeto, mesmo os que não estão dentro do “Inferno Provisório”. “Eles eram muitos cavalos” me dá a chave. O “De mim já nem sem lembra” está dentro desse projeto. E também o “Estive em Lisboa e lembrei de você”.

Sissa: Você acredita na literatura como uma forma de denúncia social? Acha que ela pode mudar ou, ao menos, fazer diferença?

Luiz: Se eu tivesse dúvida a respeito disso, eu não estaria escrevendo porque, para mim, escrever é uma opção. Eu poderia fazer outras coisas, muito mais interessantes até. Eu acho que a gente está no mundo para alguma coisa, com um objetivo qualquer. Acho que a opção pela literatura, para mim, no caso, não é só um compromisso meu com o mundo em que eu vivo, o momento em que eu vivo. De alguma maneira, se eu conseguir deixar como herança a representação desse tipo de personagem na literatura, ou seja, o operário, eu já me dou por satisfeito, acho que cumpri minha obrigação. Eu acho que a boa literatura, que um bom livro é aquele em que você sai diferente de como entrou. Se você sai diferente do jeito que entrou, houve uma mudança. Se houve uma mudança em uma pessoa – e a sociedade é feita de pessoas – então é evidente que a literatura tem uma função social, tem uma função de modificação. Não é ela que vai fazer a revolução, não é ela que vai mudar a realidade concreta. Não é essa a função dela. Mas eu acho que ela tem essa função de mudar as pessoas, o que já é imensamente grande.

Sissa: Você desenvolve uma linguagem bastante peculiar, mais próxima da fala, da oralidade. Por que essa opção?

Luiz: Sempre me incomodaram, de uma maneira febril, os livros em que os pobres falam tudo errado. Você tem lá o narrador falando certinho e o pobre, quando vai falar, fala tudo errado. Não era isso que eu via na vida real. Todo mundo fala errado. Eu já li, inclusive, resenhas em jornais importantes nas quais se dizia que o grande mérito do meu livro era captar corretamente a maneira errada do povo falar. Eu morria de rir disso, porque é a coisa mais preconceituosa que eu já ouvi. Primeiro, porque não há esse registro diferente, ricos e pobres falam errado. E, segundo, não há uma linguagem do pobre, muito pelo contrário. Eu vou te dar um exemplo só: eu estava assistindo, no Jornal Nacional, uma matéria sobre um tiroteio em que um menino foi morto. O repórter colocou o microfone na boca da mãe e ela falou o seguinte: “eu fico muito triste principalmente porque ele não teve tempo de frutificar”. Duvido que algum imbecil desses escritores que dizem que o povo fala errado escreveria isso, duvido. E é uma mulher da favela, negra, desdentada, foi ela quem disse isso. A minha preocupação foi sempre de tentar resgatar essa linguagem, e mudando. Se você pegar o “Mamma, son tanto felice”, vai ver que o registro da oralidade é totalmente diferente dos outros livros, porque vai caminhando para a cidade. Tem outro registro, porque o registro rural é muito mais poético. Ele está trabalhando ali muito com a relação, quase selvagem mesmo, com as coisas que estão fora de você, então você nomeia tudo com muito mais facilidade. Quando você vai para a cidade, você já tem as coisas nomeadas, então diminui bastante a sua capacidade poética. Eu sempre procurei trabalhar esses registros de forma diferente, mas sempre respeitando muito essa maneira de pensar, porque é a maneira que eu tenho de respeitar também meus personagens. Eles têm uma vivência psicológica muito rica. Eles têm – e veja eu não estou dizendo que eu dei a eles isso, estou dizendo que eles têm – uma visão de mundo muito clara. Sabem exatamente o que eles querem e, portanto, eles sabem que linguagem têm que usar para nomear cada coisa. Não há muito mistério nisso. Eu simplesmente fico ouvindo o que eles têm a dizer, não tenho que inventar nada. A linguagem tem essa função de colocar os personagens em seus devidos lugares, no sentido bom. Eu me assusto muito quando vejo um rebaixamento de linguagem com o sentido de tornar isso popular. Eu acho isso fascista, porque a língua é poder. E à medida que você acha que, baixando o seu registro, você está chegando a mais gente, na verdade você está desrespeitando todo mundo. O Oswald de Andrade dizia uma coisa que eu acho fantástica. Ele, quando estava no partido comunista e cobravam dele por escrever muito difícil, dizia: “Eu luto para que um dia o povo possa comer do biscoito fino que eu fabrico”. E não o contrário. E eu acho genial isso.

Sissa: Em certa medida, seus personagens parecem representar uma determinada classe social, num dado espaço-tempo, mais do que narrar uma história pessoal, individualizada. Você concorda com isso?

Luiz: Se eu tivesse que definir exatamente o que é o “Inferno Provisório” eu diria que é um romance coletivista, não um romance coletivo. Um romance coletivo é aquele em que todo mundo é personagem e ninguém é. Ele é coletivista no sentido de que ele não tem um personagem principal. Todos os personagens são personagens principais. E, mesmo aqueles personagens que são secundários, podem virar personagens principais lá na frente. Nesse sentido, eu acho que sim, ele seria um romance de classe. Ao mesmo tempo, eu acho que ele perderia completamente o sentido se não tivesse individualizações, quer dizer, se os personagens fossem símbolos e não indivíduos. Por que eu optei por fazer esse projeto, por que eu optei por uma forma de não romance? Porque a marca do romance burguês tradicional é a biografia. Tem um personagem que você vai acompanhar ou durante toda a sua vida ou parte da sua vida ou em momentos da sua vida, mas ele é biográfico, sempre é biográfico. O personagem tem claramente uma identidade e uma significação. Aliás, esse é o signo do romance, a questão da identidade. Você deixa de ter aqueles personagens que representavam alguma coisa para ter um personagem que representa exatamente ele, tem uma carteira de identidade. Só que os meus personagens não têm uma biografia, e não têm por uma razão muito simples: pobre não tem biografia. Você mora num lugar perto da beira do rio, aí vem a chuva e leva seus documentos todos, leva carteira de identidade, leva certidão de nascimento… Você não tem nem documento. Aí o seu filho vai procurar suas origens. Talvez ele chegue até o avô dele, se chegar. Não tem uma história, a história dele é absolutamente picada. É o meu caso. Eu não consigo chegar além do meu avô. E, não sei, mas acho que a maioria da população brasileira não consegue chegar além do avô e, muitas vezes, nem do pai. Portanto, seria absolutamente paradoxal eu escrever, dentro de uma tradição biográfica, não biografias. Se eu pudesse definir, eu definiria o “Inferno Provisório” sempre como uma tensão, uma relação dialética, entre o que é coletivo, ou seja, o que é simbólico, e o que é individual. Porque há aí sim uma individualidade.

Sissa: O seu texto se caracteriza por uma série de experimentações e inovações formais. Qual a função delas?

Luiz: Cada história tem uma única maneira de ser escrita. Você acerta ou não acerta. Quando eu tenho uma história, eu só posso entrar nela daquele jeito. Então eu tenho que tentar acertar, tenho que descobrir qual é o viés dela, e isso demora muito – por exemplo, no quarto volume, em “Carta a uma jovem senhora”, eu levei mais de 8 anos para chegar até ela, em “Zezé & Dinim”, eu demorei uns 4 anos pra conseguir entender como aquela história era. O que pode parecer meramente capricho, na verdade, é artifício. Eu faço questão de dizer que, para mim, literatura é artifício. Tudo é artificial. E o grande desafio é exatamente fazer o artificial parecer que verdade. Mas é artificial. Portanto, todos os signos, todos os sinais, todas as maneiras de destruir a narrativa tradicional tem um sentido sim. Se o narrador compreende ou não compreende realmente não é uma coisa que me preocupe. Não estou dizendo que eu despreze o leitor, pelo contrário, eu acho que o leitor é mais importante do que eu, porque o meu livro, se ele não for lido, ele não existe, ele está morto. Mas eu não sento para escrever e penso ‘puxa vida, será que o leitor vai entender isso aqui?’. Não. Eu parto do princípio que o leitor que lê meu livro é super inteligente; que ele saca todas as brincadeiras que eu faço; que ele, junto comigo – muito mais, aliás, porque eu não tenho domínio sobre o que eu escrevo -, descobre as coisas que eu estou escrevendo. A linguagem é extremamente importante, a identificação que você tenha ou não com o personagem pra mim é primordial. Mesmo que às vezes eu mesmo não compreenda tudo o que está lá e às vezes também o leitor não compreenda tudo o que está lá. Não tem problema, eu não compreendo tudo o que está aqui também.

Sissa: Os personagens de “Inferno Provisório” parecem sempre condenados. Há final feliz possível?

Luiz: Eu sou otimista. Eu acredito que seja assim porque o mundo onde eu vivo é assim. E que as coisas vão melhorar porque eu vou lutar para que melhorem. A questão é que nós somos um país muito jovem. Nós temos uma população de imigrantes ainda. Tive que escrever outro dia um texto curto sobre qual seria a palavra-chave que caracteriza a minha obra e descobri que é ‘movimento’, no sentido em que todos os personagens ali estão no lugar errado. Na verdade, não é lugar errado, eles estão sem lugar, fora do lugar. Os meus avós vieram miseráveis da Itália e miseráveis de Portugal, foram para Minas. Meu pai nasceu numa cidade, minha mãe em outra. Eles se casaram e foram para Cataguases. Eu nasci em Cataguases, fui para Juiz de Fora estudar, vim para São Paulo trabalhar. Estou aqui, não sei se vou ficar ou não. E a minha história não é diferente da maioria das histórias que você conhece. O problema do imigrante é que ele não está em lugar nenhum, nunca está, porque nós não temos história, nós não construímos nossa história. Talvez daqui a duas gerações a gente comece a ter uma história. O que é história? História, para mim, é você conseguir enterrar os seus mortos num mesmo cemitério, para mim isso é história. Eu não tenho. A minha família, por exemplo, acho que não conseguiu enterrar duas gerações no mesmo cemitério. Por isso, talvez, essa angústia de você não conseguir se localizar. Nós saímos de um país agrário para um país pós-moderno. Em 50 anos. É um trauma que anos de psicanálise não resolve. Isso significa que você sai de um lugar onde as coisas, o espaço e o tempo são um, e é julgado num espaço e tempo completamente diferentes. Como você consegue lidar com isso? Você não consegue. Há uma coisa que eu compreendi há muito pouco tempo. Eu não entendia porque, achando que eu era otimista, ao mesmo tempo a forma do meu trabalho era ruína. Tudo está desabando, a forma está desabando, a linguagem está desabando, é uma ruína. Mas hoje eu compreendo, porque eu descobri que não é ruína, é construção. Não tem nada mais parecido com uma casa em construção do que uma casa em ruína. Na verdade, essa linguagem, essa forma, elas não estão em ruína, estão em construção. Como o país que eu quero representar. Nós não estamos fadados a retroagir, pelo contrário, nós estamos caminhando em direção a alguma coisa. Não sei o que é ainda, mas com certeza é melhor. Não tenho dúvida. Nós somos um esboço de alguma coisa, tanto o país como nós, sociedade. Nós estamos começando a desenhar alguma coisa. A gente não sabe o que é ainda, mas já aparece alguma coisa mais nítida.

Sissa: Até onde vai o inferno provisório? O que há de provisório no inferno?

Luiz: É provisório porque ou ele vira inferno mesmo ou não. Isso é uma brincadeira. O Murilo Mendes tem um poema, como bom católico, que diz “Prefiro o inferno definitivo que a duvida provisória”. Eu prefiro o inferno provisório porque ele significa que você ainda tem uma opção. Ele é algo que existe, você está nele, mas é possível que você saia dele. Pode durar para sempre, mas eu acredito que não dure para sempre. E hoje, mais do que nunca. Quando eu pensei no título “Inferno Provisório”, eu não tinha sacado isso ainda, que, na verdade, ele é como uma casa provisória, você está ali enquanto não acha uma coisa melhor. Então é provisório por causa disso, está em construção. Nós estamos num lugar provisório, vamos para um lugar melhor. Acho absolutamente inconseqüente pensar que nós não estamos melhorando. Com todos os problemas – e temos milhões de problemas – o que nós éramos 10 anos atrás e o que nós somos hoje é muito diferente. E a perspectiva é cada vez melhor. Eu acho que só o simples fato de saber que este ano, e ano a ano, você vem colocando no mercado formal, no mercado consumidor, quantidade maior de pessoas, significa que essas pessoas estão consumindo mais, comendo melhor, conseguindo pensar, quem sabe, até em comprar livros…

EM BOM PORTUGUÊS…

“A partir do momento em que você escreve numa língua, você não está só escrevendo, você está reconstruindo uma história, e a história é uma visão de mundo também. Você está carregando ali uma série de coisas que você nem sabe o que tem por trás.”

“Eu sinto muito mais afinidade com a língua galega do que com a língua portuguesa. Eu brinco que estou defendendo que nós não falamos português, na verdade, nós falamos galego.”

“Nós temos artificialmente uma língua que artificialmente nos une. Eu acho que isso representa nossa capacidade de construir essa língua dentro das nossas especificidades e compartilhar as nossas visões de mundo diferentes, mas, enfim, imaginando que você tem esse liame que está amarrando tudo. Nós acabamos nos entendendo de alguma maneira.”

“Estive em Timor agora para tentar ver se a gente faz uma nova geração de escritores lá. A ideia é de que a gente consiga chamar a atenção desses jovens para que eles comecem a transformar tudo isso em histórias, em livros, em romances, enfim, em literatura.”

“Esse acordo (ortográfico) é um acordo para o mercado. Quem ideou foi o mercado, por causa da circulação de livros. E ficou mais fácil circular os livros. Só isso. O acordo ortográfico não é um problema. Não muda em absolutamente nada a minha vida.”

Luiz Ruffato – Vídeos

fevereiro 25, 2010

VÍDEOS

Por onde começar: “Eles eram muitos cavalos”, editora Record

O autor por ele mesmo: Luiz Ruffato lê trecho do romance “Eles eram muitos cavalos”, págs. 76 e 77, 6ª edição, editora Record

Charles Baudelaire, por Luiz Ruffato: poema A uma passante, do livro “Flores do mal”, de Baudelaire

A melodia de José Luís Peixoto

dezembro 31, 2009

“A luz da manhã não sente os vidros limpos da janela no momento em que os atravessa, pousando depois nas notas de piano que saem da telefonia e flutuam por todo o ar da cozinha”. Assim começa o segundo capítulo de “Cemitério de pianos”, romance de José Luís Peixoto que narra a história de Francisco Lázaro, ou melhor, de ‘Franciscos’ que se sucedem no tempo, como se fossem um a continuação do outro. Essa, impregnada nas palavras, é a música de Peixoto.

Personagens e situações inusitadas marcam os dois primeiros romances do autor: “Nenhum Olhar”, vencedor do Prêmio José Saramago, e “Uma casa na escuridão”, romance que acaba de chegar ao Brasil. Gêmeos siameses unidos por um só dedo, gigantes, diabos casamenteiros, príncipes, heroínas inexistentes e heróis mutilados.  De uma surpresa a outra, a atmosfera é de fábula. Nada é o que parece. As cenas se desdobram, os significados se multiplicam.

A linguagem do autor é rica em imagens e tem um ritmo só dele, construído com cuidado, engendrado. Existe cumplicidade entre eles – língua e autor. Realidade e fantasia se confundem. Em tudo o romancista lembra o poeta. José Luís Peixoto escreve poesias desde a adolescência.

Para o autor, escrever um livro é só parte do seu trabalho. É preciso também levar esse livro ao leitor. “Eu acredito que o livro cumpre-se quando ele encontra um leitor que tenha a generosidade de fazê-lo viver. Até lá, ele é um objeto morto. Um livro fechado, um romance numa prateleira, numa estante, é um objeto. Podia não ter sido escrito.” Em parte, é essa crença que leva ao Peixoto a perambular pelo mundo, participando de eventos literários e se encontrando com leitores.

Com o recente lançamento de “Uma casa da escuridão”, seus três romances passam a ser publicados no Brasil. Ainda faltam os livros de poesia, lembrando que um deles – “A casa, a escuridão” – está intimamente ligado a esse último livro.

Além de poesias e romances, José Luís Peixoto também escreve contos, crônicas, peças de teatro, letras de música. É possível acompanhar um pouco do trabalho do autor e das suas andanças pelo mundo pelo blog que ele mantém na homepage da revista Bravo: http://bravonline.abril.com.br/blog/joseluispeixoto/.

Sissa: Como você escolhe seus temas?

José Luís: Eu tenho vindo a reparar que os temas recorrentes no meu trabalho acabam por estar ligados a grandes temas, como a morte, o tempo, o amor. Depois há outros temas que são mais específicos, como a família – todas as relações familiares – e a linguagem. Eu gosto de pensar que a linguagem também é um tema pelo próprio trabalho e pela própria proposta de trabalho que é apresentada nesses textos. Agora, essa foi uma conclusão a que eu vim chegando ao longo do tempo, não foi algo que eu tivesse completa consciência no início. Eu sou o tipo de autor que escrevo depois de ter muito construído aquilo que eu quero escrever. Não vou construindo à medida que vou escrevendo, nem vou descobrindo à medida que vou escrevendo. Eu, normalmente, escolho um tema, ou vários temas, e começo a escrever depois de ter feito uma reflexão grande sobre aquilo que quero escrever. No entanto, esses temas atravessam praticamente todos os meus livros e isso nunca foi programado. Eu acabei de chegar à conclusão, quase que a posteriori, de que eram temas que me diziam muito, porque voltava tantas vezes a eles. Eu não tinha a ideia de que eram tão importantes assim para mim.

Sissa: É possível encontrar no seu trabalho, com certa frequência, referências autobiográficas. Como você lida com isso?

José Luís: Eu concordo com isso, na verdade, isso é a observação de uma realidade. Aliás,  em “Cemitério de pianos”, o primeiro capítulo é, literalmente, autobiográfico. Esse primeiro capítulo é a descrição da morte do meu pai, que aconteceu no mesmo dia do nascimento da minha sobrinha. Depois, o romance é todo ficcional, porque eu considero que faz parte da natureza do gênero romance ser ficcional. Mas também essa distinção entre ficção e autobiografia é muito complexa. Na verdade, quando se escreve um livro já se está a tomar uma atitude sempre de ficção sobre a realidade. Os textos autobiográficos não são a realidade, a realidade é outra coisa que nos transcende. Pessoalmente, acredito muito no indivíduo, porque a literatura, sob certo ponto de vista, são dois pensamentos a dialogarem. Aquilo que é individual no autor a dialogar como aquilo que é individual no leitor. John Banville tem uma frase que acho muito curiosa na sua simplicidade: “A única pessoa que nós podemos conhecer desde dentro somos nós próprios”. Nós nunca podemos conhecer os outros desde dentro. E, também, aquilo que eu sinto é que falar sobre coisas que eu conheço e que me aconteceram não é dar nada de extravagante aos outros. É dar aquilo que é importante para mim, mas não é dar alguma coisa que seja fora do humano. Antes, pelo contrário, eu acho que toda gente chora, toda gente grita, toda gente tem pesadelos, toda gente tem orgasmos… São coisas que são humanas. Não há nenhum motivo para ter um pudor exagerado sobre elas. Nessa medida, eu pessoalmente acredito numa arte e numa literatura na qual eu me ponha em causa, na qual eu, depois dela, saia diferente. E isso acontece muito quando se faz esse tipo de literatura autobiográfica, porque o olhar das outras pessoas muda. Mas há uma coisa de que eu tenho consciência: eu não controlo o olhar de outras pessoas, felizmente.

Sissa: Você escreve romances, poesias, peças de teatro, letras de música. Como decide o que irá escrever? Você tem alguma predileção por um gênero ou outro?

José Luís: Eu tenho uma vivência pessoal diferente em cada um desses gêneros. Eu comecei por escrever poesia quando era adolescente, como tantas outras pessoas. Sempre continuei a ler poesia e também a escrever. A poesia manteve sempre esse lugar para mim, que é um lugar quase ‘diarístico’, de diário. Depois, aos poucos, foi surgindo a prosa, com um lugar também próprio, quer seja a prosa do romance ou textos mais curtos como contos e crônicas. Cada um tem o seu lugar e cada um tem a sua função pessoal. Depois, mais tarde, surgiu o teatro e surgiram as letras de canções. Esses gêneros, de certa forma, ajudam-se uns aos outros. Na medida em que com uns eu aprendo coisas que depois acabo por utilizar também nos outros, embora eu saiba que são completamente únicos. Têm características diferentes, mas há alguns aspectos que são partilhados. No entanto, aquilo que mais interessa são os aspectos que são diferentes porque são o que fazem progredir, o que fazem aprender. No caso do teatro em particular, é para mim muito interessante porque me permite trabalhar com outras pessoas. Porque, a solidão, não se pode escapar dela na escrita, mas é bom ter também a opinião de outras pessoas, às vezes partilhar essa responsabilidade com elas. O teatro é, por natureza, um trabalho conjunto, em que o resultado final não depende só do texto, depende de muitas outras coisas. E isso é bom também. Por outro lado, eu não sou capaz de escrever romances seguidos, um atrás do outro, porque eu acredito que, para escrever o que quer que seja, é preciso ter alguma coisa para dizer. Primeiro tenho que saber o que eu quero dizer, o que eu aprendi, o que eu ambiciono, o que eu acredito. E que outra pessoa não pode dizer. Se outra pessoa puder dizer ou se outra pessoa já tiver dito, então não faz sentido. Tem que se acrescentar alguma coisa porque a literatura é também uma área do conhecimento. As pessoas, depois de lerem um romance, espera-se que saibam um pouco mais sobre a vida por pouco que seja. E, nessa medida, não vale a pena fazer aquilo que já foi feito e se tem que respeitar o tempo das pessoas que vão ler. Então é importante que se acredite naquilo que se publica. Por isso eu não consigo terminar um romance e escrever outro. Com 35 anos, três romances, acho que já é bastante. 

Sissa: Na sua prosa, a poesia é bastante presente. Você vê relação entre essa forma de expressão e a proximidade que parece existir entre sua vida e a sua obra?

José Luís: Cada poeta constrói o seu conceito de poesia nos poemas que vai escrevendo, por isso, cada um, até mesmo cada leitor de poesia, cada pessoa que tenha algum conhecimento de poesia, tem uma noção diferente daquilo que é ou que deve ser a poesia. Quando eu disse que era diarística, era para mim, não pra toda gente do mundo. Para mim, a poesia é muito literal, no sentido em que a questão autobiográfica coloca-se de uma forma, em alguns pontos, quase que obscena, enquanto diz ‘eu sou eu’. Mas isso tem a ver com a minha vivência da poesia, não com a vivência de todas as pessoas. Depois, é óbvio, tem de existir um trabalho de linguagem. Não se trata unicamente de sentir. Sentir, todas as pessoas sentem. Depois há umas que se afastam para conseguir obter uma distanciação e uma visão e criar um sistema de linguagem que tente exprimir isso. Mas, é claro, também quem tenta essa distanciação sabe que ela é sempre imperfeita.

Sissa: A metáfora, os símbolos, a representação são elementos bastante fortes em “Nenhum Olhar” e “Uma casa na escuridão”. Nesse sentido, parece haver uma ruptura ou, pelo menos, uma diferenciação em “Cemitério de Pianos”. Você concorda com isso?

José Luís: Eu concordo bastante e até tenho pena que esse aspecto não seja referido mais vezes. Apesar de tudo, sei que existem algumas ligações, ou seja, mesmo entre “Cemitério de pianos” e os outros também se nota que foram escritos pela mesma pessoa. Mas existe, de facto, um afastamento sob essa perspectiva. Isso tem realmente a ver com o facto de que, nesses anos, entre 2004 e 2006, escrevi 3 peças de teatro, desenvolvi muitíssimos projetos em outras áreas da literatura, que não a prosa ou a poesia, e que, eu penso, mudaram bastante a minha visão sobre a escrita e sobre a escrita até do romance. Agora, ruptura acho que seja um pouco forte demais, porque há muitos aspectos em que talvez exista uma continuação. Continua a existir metáforas, embora sejam diferentes. Continua a existir uma série de opções, mas existe realmente uma sensibilidade diferente, acho eu.

Sissa: Como você define sua linguagem?

José Luís: Eu não sei muito bem, tenho muita dificuldade em descrever minha linguagem, porque nós não conseguimos ter um distanciamento da nossa voz, não conseguimos avaliar-nos completamente. Eu acho que há alguns aspectos que formam e dão características únicas à minha linguagem, como o fato de eu ter nascido no Alentejo e de ter lidado sempre com pessoas que têm um vocabulário próprio, expressões próprias e uma forma de utilizar a linguagem também de uma maneira própria. Aqui no Brasil, por exemplo, uma coisa que eu noto muito é o uso criativo da língua. É quase como antes da formatação nas crianças, em que elas, quando têm 4 ou 5 anos, são altamente criativas e, depois, na escola, alguma dessa criatividade perde-se porque é formatada com regras. No Brasil, eu sinto que essa formatação é menor, o que dá lugar a uma criatividade maior por parte de cada falante. Eu gosto de pensar que na minha região também existe um pouco dessa criatividade e que eu também fui um pouco afetado por ela, por parte de pessoas altamente influentes sobre mim, como seja minha mãe, por exemplo. Depois há um ritmo, digamos assim, uma respiração que também faz parte da linguagem, que marca a linguagem de todas as pessoas, e esse ritmo é construído, não sei, pelo nosso pensamento, em primeiro lugar, porque a linguagem é um consequência do pensamento, está ligada a ele. A linguagem não é uma coisa que existe por si só, independente da nossa constituição mental do mundo. Por outro lado, há depois um trabalho consciente da linguagem, que tem a ver com as minhas leituras e tem a ver com os meus conceitos literários, como seja esse aspecto, por exemplo, da pontuação ou de alguns detalhes que eu tento especificar de texto para texto para que esse texto, em particular, possa ter uma textura, uma tonalidade própria.

Sissa: De certo modo, você parece querer subverter ou desafiar o tempo no seu trabalho. Como você trabalha o “tempo” como elemento dos seus textos?

José Luís: O tempo é fundamental. O tempo é tudo.  Nós vivemos no tempo como os peixes vivem debaixo d’água. O tempo é o que condiciona a nossa apreciação do mundo. Uma das nossas tarefas é gerir o tempo. Uma das nossas tarefas fundamentais é também perceber qual é a natureza dessa matéria que é o tempo. Os livros, em particular, e a leitura são feitos de tempo. Existe neles o tempo que o leitor entrega a eles. O tempo não é incompreensível, também não é fascinante, mas é uma mistura dessas duas coisas, que é o ser irreversível. Nós não podemos desfazer aquilo que fizemos, não podemos voltar atrás. Nós existimos num presente que está sempre a desfazer-se a nossa passagem. Por isso é importante nós aprendermos o máximo possível e o mais rapidamente possível sobre o tempo. Ter uma ideia sobre o tempo é tão importante quanto ter uma ideia sobre a morte ou sobre deus, que na verdade são duas coisas intimamente ligadas ao tempo, acho eu.

Sissa: Qual é o papel da música e da musicalidade na sua obra?

José Luís: A música é inseparável da escrita, ou seja, ela é inseparável da construção do discurso, na medida em que não pode ser ignorada por quem escreve. Naturalmente que um texto não precisa ser musical, pode ser antimusical, até pode ser conscientemente cacofônico. Mas, se o for, isso irá alterar o seu sentido. E, portanto, acho importante que quem escreva considere esse aspecto para colocá-lo a serviço do seu sentido. O texto tem vários elementos que são elementos também da música, por exemplo, o ritmo, que está sempre presente em qualquer texto, até uma lei tem um ritmo, todos os textos têm um ritmo. E eu gosto de pensar que também pode ter uma melodia, às vezes, e uma harmonia de certa maneira também terá – pelo menos, é um dos elementos com os quais se joga, quero dizer, com sua harmonia ou falta de harmonia. Por isso, eu acho que essa questão surge porque, às vezes, houve momentos em que eu procurei justamente uma musicalidade. Mas a musicalidade existe em todos os textos, em todas as pessoas.

Sissa: Você tem uma agenda bastante agitada, viaja com frequência. O que te move?

José Luís: Eu adoro viajar. Viajar é um é um objetivo que eu tenho na vida. Conhecer, ver coisas diferentes, encontrar pessoas diferentes, aprender. E depois, ao mesmo tempo, também tenho muita vontade de levar os meus livros a outras pessoas. Para mim, não é indiferente se um livro meu é lido por 100 pessoas ou por 10 mil pessoas. Eu prefiro sempre que seja lido por 10 mil pessoas. Porque eu acredito que o livro cumpre-se quando ele encontra um leitor que tenha a generosidade de fazê-lo viver. Até lá, ele é um objeto morto. Um livro fechado, um romance numa prateleira, numa estante é um objeto. Podia não ter sido escrito. E, nessa medida, eu gosto de tentar fazer aquilo que eu possa por esses livros que eu escrevi, tentar levá-los às pessoas. Às vezes, assim, nos contextos das viagens, tentar levá-los a pessoas que não são até as mais óbvias, porque não são as pessoas com as quais a minha vida se cruzaria. Como todas as situações, essa escolha tem lados positivos e lados negativos, traz coisas boas e traz coisas menos boas. É sempre assim, com tudo. E eu pretendo viver com elas, com as boas e com as menos boas. Mas sabendo que é um privilégio e também entendendo aquilo que eu faço como algo que se divide em dois, não de uma maneira muito rígida, mas que se divide em dois, que é o momento de escrever e o momento de tentar levar aquilo que eu escrevo a outras pessoas, que eu considero como uma extensão do momento de escrever.

Sissa: Você se considera uma pessoa otimista?

José Luís: Eu considero-me otimista a longo prazo e pessimista a curto prazo. Vejo muitas coisas erradas no mundo, coisas que se mantêm assim há séculos. Maneiras de agir, maneiras de pensar, maneiras de ver os outros, que não mudam há séculos. Se eu pensar nas guerras, por exemplo. Enquanto nós estamos aqui, há pessoas a envolver todos os esforços possíveis para matarem outras. Por isso eu sou um pouco pessimista a curto prazo. Não vejo que essa mudança vá acontecer durante a minha vida; que as pessoas que têm mais percebam que há, ao lado, outras que não tem nada e que não se limitem a olhar para o lado e a fingir que não viram. Mas, ao mesmo tempo, também acredito no ser humano, porque vejo o grande número de realizações que foram feitas neste mesmo espaço de tempo. E sinto que, de alguma forma, o ser humano está a avançar e a evoluir para alguma coisa melhor. Acredito que, sob aspectos até que ultrapassam o meramente tecnológico, estamos melhor e mais conscientes de nós e dos outros do que estávamos anos atrás.

Sissa: No seu romance “Uma casa na escuridão”, há um capítulo intitulado ‘O amor é impossível’. Você acredita nisso?

José Luís: O amor romântico, em que duas pessoas se encontram e ficam felizes para sempre, não considero que seja possível. Até porque não considero que o que quer que seja seja possível para sempre. Só a morte e o silêncio é que são possíveis para sempre. Mesmo o silêncio não, só a morte mesmo. Mas nós temos dificuldade de entender, porque não concebemos esse infinito, essa suspensão. O absoluto não faz parte das coisas que os seres humanos são capazes de apreender.Mas a palavra amor serve para designar um número muito alargado de coisas, ou seja, nem todos os amores são impossíveis. Refiro-me a esse amor em que há quase uma espécie de suspensão, as pessoas o atingem e ficam nele. Isso não acontece porque nada é assim. Não há nada que se atinja e que depois fique num estado de suspensão absoluta. Normalmente, quando se atinge alguma coisa, começa-se a olhar para as outras coisas todas que não se têm. Porque há muitas coisas que não se têm. Mas a existência do amor é possível. Existir, no momento, algo que se chama amor, eu acredito que é possível. Também me parece que não é por ser impossível que devemos deixar de procurar. Porque há muitas coisas que não são fáceis ou que até podemos, talvez, considerar impossíveis, como a liberdade, a paz, mas não é por isso que as deixamos de procurar ou que as deixamos de ter como horizonte.

Em bom português…

“Eu acho que a língua portuguesa é uma língua privilegiada sob o ponto de vista das possibilidades que oferece. É uma língua bastante plástica, que permite experimentação, que permite muitas possibilidades que ainda estão aí para serem experimentadas.”

“A língua que nós falamos em Portugal, no Brasil, em Moçambique, em Cabo Verde é a mesma. É a mesma língua. Têm especificidades, mas essas especificidades são a sua riqueza. Não são um fator de separação, são fator de riqueza da própria língua.”

“Não tenho grande posição sobre o acordo ortográfico. Eu acho até que tenho a posição majoritária dentro da sociedade, que é a de não me interessar muito por essa discussão. Acho que é uma discussão vazia de entusiasmo.”

“Acho que as grandes questões da língua e as grandes questões da linguagem estão completamente à margem dessas minudências ortográficas. Com ou sem ‘c’ antes do ‘t’, com ou sem trema, o mundo e a forma de o dizer continuará a ser o grande desafio para quem escreve e para quem lê e para quem se interessa por saber mais.”

(Entrevista publicada no Cronópios em 20 de dezembro de 2009 – http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4339)

José Luís Peixoto – Vídeos

dezembro 31, 2009

VÍDEOS

Por onde começar: “Cemitério de Pianos”, Ed. Record, 2008

O autor por ele mesmo: trecho de abertura de “Morreste-me”, Ed. Quetzal, 8ª edição, Lisboa, 2009

Herberto Helder, por José Luís Peixoto: poema Súmula, de Herberto Helder

O peso e a leveza de Gonçalo M. Tavares

dezembro 31, 2009

Quanto pesa uma palavra? E um livro repleto delas? Gonçalo M. Tavares, escritor português, parece saber a resposta. Em seus textos, o leitor desavisado pode tropeçar numa sequência de letras de uma tonelada ou se deparar com uma revoada delas.

O autor transita entre a loucura, a lógica e o absurdo com extrema desenvoltura. Pondo à prova distinções que tínhamos como óbvias. No final, começamos a questionar nossa própria lucidez, ou o que entendemos por isso.

Desde o lançamento de seu primeiro livro, em dezembro de 2001, aos 31 anos, Tavares já publicou mais de 20 títulos e conquistou importantes prêmios literários, como o Prêmio José Saramago, em 2005, e o Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2007, ambos com o romance “Jerusalém”.

Segundo o autor, quase todos os livros publicados até agora foram escritos entre os 18 e os 31 anos, fase em que se dedicou intensamente à escrita e à leitura sem pensar seriamente em publicar. “Em certa altura, os 30 anos era uma referência”, afirma Tavares.

“Aprender a rezar na era da técnica”, romance publicado no Brasil em 2008, conclui a tetralogia iniciada com “Um homem: Klaus Klump”. Juntamente com “A máquina de Joseph Walser” e “Jerusalém”, formam a coleção “O Reino”, conhecida em Portugal como os “livros pretos” em razão de terem a violência e o medo como temas centrais.

Mas “O Reino” não foi sua primeira coleção. Em 2002, publicou “O Senhor Valéry” como título isolado. No entanto, logo se viu envolvido por um séquito de personagens: quase 40 senhores. Assim criou “O Bairro”, coletânea de livros que apresentam os diferentes moradores de um bairro utópico e mágico, onde tempo e espaço parecem não importar. Comparado, pelo próprio autor ao explicar o projeto, à lendária aldeia de Asterix, que se mobiliza para resistir à invasão dos bárbaros, “O Bairro” de Gonçalo parece tentar resistir à barbárie humana.

Além da organização dos livros em conjuntos, em muitos dos seus textos Gonçalo Tavares parece criar divisões e classificações internas. Trabalha com fragmentos que se sucedem ou intercalam. Às vezes colados uns aos outros, às vezes justapostos, às vezes embaralhados. Assim constrói, ou melhor, sugere significados.

Mesmo quando recorre ao humor, o autor não trai sua visão crítica e dura da realidade que interpreta. Mas, entre as lâminas que dispõe cuidadosamente, circula uma espécie de ‘abrandamento’. Como se uma pedra pudesse fazer as vezes de um travesseiro de plumas. O texto de Tavares encanta e incomoda.

Gonçalo M. Tavares tem um desejo: transformar o texto que pesa no papel em lucidez. “Eu gosto muito da ideia de que – e tento isso, não sei se consigo, mas tento – os meus livros possam ser uma espécie de 150g de lucidez. Um peso que depois é transformado em lucidez no leitor”.

Sissa: Loucura, violência, doença, medo, morte. Como você escolhe seus temas?

Gonçalo: Eu acho que há temas que levam o homem tão ao limite que são uma espécie de ‘centros de investigação’. A loucura é uma situação limite e, portanto, muitas vezes, para quem escreve, para quem tenta observar e perceber como é o ser humano e como é que ele funciona, é um mundo que tem muita informação. A guerra também é um exemplo que põe os homens no limite. De certa maneira, nós vemos, até por notícias às vezes terríveis, que algumas pessoas, alguns seres humanos, quando colocados numa situação limite de guerra, comportam-se de uma maneira e outros, comportam-se de outra completamente diferente. Se há pessoas que, nesse limite, por exemplo, torturam, há outras que não torturam, estando no mesmo limite. Portanto, tanto a loucura como a guerra, o medo, são situações que obrigam os homens a revelarem-se. São temas muito fortes e que me interessam. No “Aprender a rezar na era da técnica” há um tema muito explícito, que não aparece nos outros livros, que é o da política. O livro narra basicamente a história de um médico, um cirurgião, que nas suas operações salva as pessoas uma a uma e, em certa altura, observa um político e conclui que, enquanto sua mão direita pode salvar, na condição de médico, uma pessoa de cada vez, a mão direita de um político, no seu gesto, pode salvar cem mil pessoas ou matar cem mil pessoas. E, por essa maneira, fica obcecado por esse efeito dos movimentos da mão do político. Em certa altura, abandona a medicina e faz uma trajetória política. Este livro está dividido precisamente entre três grandes capítulos: força, doença e morte. Esses três são temas os quais, de certa maneira, podem ser considerados recorrentes e se ligam aos outros de que falamos. A doença é também uma situação limite em que percebemos melhor como é que os seremos humanos funcionam e, portanto, eu diria que tem a ver com estas situações extremas.

Sissa: E é isso que você busca no seu trabalho, essa revelação do homem de alguma maneira?

Gonçalo: Não tanto a revelação, porque não tenho a ilusão de que a literatura pode revelar, no sentido de descobrir um segredo. Não é possível dizer “Ah, com esse livro descubro o truque da espécie humana”, ou seja, não é descobrir algo. Eu acho que os livros não acabam num resultado. Um livro não é como se fosse a resposta a uma conta de matemática ou uma charada. Não é isso. O que eu pretendo com os livros é pelo menos perceber melhor o funcionamento do ser humano. Eu gostava que quem lesse os livros ficasse mais lúcido. Eu gosto muito da ideia de que – e tento isso, não sei se consigo, mas tento – os meus livros possam ser uma espécie de 150g de lucidez. Um peso que depois é transformado em lucidez no leitor. E a lucidez tem um pouco a ver com isso, com perceber melhor as pessoas. 

Sissa: Você publicou duas coleções de livros – O Bairro e O Reino. Por que a opção de trabalhar desse modo, com as coleções?

Gonçalo: Eu não sei bem como é que começou. O Bairro, por exemplo, não foi pensado antes de existir. O primeiro livro que saiu foi o senhor Valery, em Portugal, como um livro isolado. Depois veio o senhor Henry, o senhor Calvino, o senhor Juarroz. Só a partir de certa altura eu percebi que queria fazer um Bairro, uma espécie de utopia. Eu brinco um bocado que é uma espécie da aldeia de Asterix. Um Bairro que resistirá à invasão dos bárbaros. Um Bairro de pessoas estranhas, lógicas, absurdas. Mas, de certa maneira, um bairro em que, espero eu, inteligências, absurdos, estão em jogo. Os 4 romances de O Reino são um pouco diferentes porque é uma tetralogia. De certa maneira, há personagens que passam de um romance para o outro, são secundárias num romance e passam a personagens principais em outro, portanto, é um conjunto.

Sissa: Qual a linha que conduz o Bairro?

Gonçalo: A certa altura, percebi que o Bairro é uma espécie de utopia, de espaço utópico. E isso foi algo que não percebi no início, mas que, para mim, agora está claro. A ideia de um Bairro sem espaço em que se cruzam, por exemplo, o Sr. Balzac com o Sr. Duchamp, pessoas que no tempo não poderiam cruzar, que nunca viveram num mesmo espaço. Eu fiz um Bairro completo, um desenho que tem já uma série de senhores, que ainda não saíram e que eu ainda não escrevi. É um projeto quase interminável.  Mas aquilo lá é um bocado o projeto que eu gostaria de fazer. São cerca de 40 senhores, desde artistas, arquitetos, escritores. Os nomes dos senhores do Bairro são homenagens. É dar o nome de um escritor ou de um artista a um personagem de ficção. Eu costumo dar o exemplo de que é como dar o nome de um escritor a uma rua. Quando damos o nome de um escritor a uma rua, em primeiro lugar, não se espera que a rua se pareça com o escritor. Agora, quando se dá aquele nome precisamente a uma rua, não se dá por acaso. Dá-se, por exemplo, porque o escritor viveu lá ou porque tinha lá o seu escritório. E é um pouco essa a relação com o personagem de ficção, ou seja, não é aleatório. Mas o que é importante é que são personagens de ficção, não me interessa nada a biografia do escritor, é puramente ficcional. Portanto, o que os personagens fazem é mandatório meu. Mas eu gosto dessa mistura. Há sempre um ponto de ligação. Eu acho que também o que dá unidade ao Bairro tem a ver com o caráter lúdico dos personagens. Os personagens que estão no Bairro não são necessariamente meus personagens favoritos, não tem nada a ver com isso. Por exemplo, eu gosto de Thomas Mann, mas não o vejo como um senhor do Bairro. Tenho que sentir que pode haver um personagem com aquele nome.

Sissa: E o que dá unidade ao Reino?

Gonçalo: Se o Bairro, como eu disse, é um espaço de certa maneira lúdico, o Reino, ao contrário, é um mundo muito violento. É interessante o contraste entre o Bairro e o Reino, as próprias palavras dão a diferença. São duas palavras muito do espaço. Mas o Bairro é uma palavra acolhedora, de certa forma protetora, conhecemos os vizinhos, nos sentimos em segurança. O Reino, pelo contrário. É também uma palavra espacial, que tira para o espaço, mas um espaço que não tem limite, um espaço grande, em que nos sentimos perdidos, em que podemos ter medo, em que não conhecemos ninguém. Aí a violência. O medo é sempre a primeira parte da base da violência, portanto. Não foi pensado, mas, de certa maneira, construí um Bairro e um Reino quase como se fossem dois mundos opostos. Em relação ao Reino, o que dá unidade é que os 4 romances são passados sobre um fundo de certa violência. Em “Um homem: Klaus Klump” e “A Máquina de Joseph Walser”, que ainda não saiu cá, deve sair para o ano, Klump e Walser são duas personagens que, no mesmo período de guerra, uma trabalha numa fábrica, num posto de base, com uma máquina, e o outro é um dos chefes de outra fábrica. É um pouco ver como é que pessoas de hierarquias muito diferentes numa fábrica conseguem atravessar uma mesma guerra, a violência. E todas as personagens, de certa maneira, estão presentes nuns e noutros romances. E as personagens são muito uma espécie de tentativa de perceber o mal, a violência. Por isso que, em Portugal, são chamados de livros pretos, no sentido de duros.

Sissa: Você organiza o texto de forma peculiar, como se juntasse ou colasse fragmentos, peças, tijolos. O que pretende com isso?

Gonçalo: Depende também um bocado dos livros. Eu gosto da ideia de que um único fragmento – e, se calhar, os pequenos capítulos dos romances também funcionam assim – tenha valor por si próprio. Eu gostava é que a pessoa, se abrisse um livro meu ao acaso na página 70, sem saber nada das páginas anteriores nem das páginas seguintes, lesse aquela página e ela lhe desse alguma coisa logo. Ou seja, eu não quero que um livro esteja sempre a depender das páginas anteriores ou das páginas seguintes, e que a pessoa, só ao final do livro, receba qualquer coisa. Nesse aspecto, eu penso que não sou um grande adepto daquela literatura em que todos lêem da mesma forma, todos interpretam da mesma forma. Eu gosto que sobre uma parte para que o leitor intervenha e, portanto, que pense, que reflita. Por isso, necessariamente vai ter uma interpretação individual.

Sissa: Você escreve contos, romances, poesias, peças de teatro. Tem alguma preferência em relação a gênero?

Gonçalo: Não. Eu, aliás, não sou muito defensor dessas divisões em gêneros. Eu acho que, cada vez mais, as coisas são misturadas, híbridas. Por exemplo, “Aprender a rezar na era da técnica”, que é um romance, acho que, de certa maneira, também é um ensaio. Um dos primeiros romances, que é “Um homem: Klaus Klump”, publicado pela Companhia das Letras, eu acho que, em muitas partes, tem a ver de certa maneira com a preocupação com a palavra, com o mundo poético. Não com a poesia, mas com o mundo poético. E, às vezes, a poesia é muito narrativa ou é muito ensaística. Eu acho que essas coisas estão todas misturadas e, portanto, não tenho preferência. O que parece, para mim, claro é que, por exemplo, um romance chega a sítios completamente diferentes, até do próprio leitor, do que o conto. São quase como se fossem instrumentos completamente diferentes. Quer dizer, se tivermos um martelo devemos martelar e se tivermos uma chave de fendas devemos utilizá-la como uma chave de fendas. É um pouco isso. O romance, por exemplo, exige muito tempo do leitor, horas, e alcança camadas do leitor diferentes do conto, mas isso não quer dizer que seja melhor ou pior. O conto ou, por exemplo, um poema ou um fragmento rapidamente tem e provoca uma reação, coisa que o romance pode não provocar de imediato. Portanto, eu gosto de passar de umas coisas para outras. Quando eu me sento a escrever nunca é para escrever um gênero literário, sento-me para escrever. Em geral, não sei o que vai sair.

Sissa: Você se considera otimista?

Gonçalo: Não colocaria nem como otimista nem como pessimista. Eu prefiro a palavra lucidez. É uma palavra que eu gosto bastante. Tento ser lúcido. E ser lúcido é ter uma energia para fazer isso. Fazer alguma coisa já é ser otimista, porque é por alguma coisa no mundo, é achar que pode ser útil, como escrever um livro. Quando alguém publica um livro é, de certa maneira, de um grande otimismo, mesmo sendo um livro duro. O “Aprender a rezar na era da técnica” é um livro duro, mas parte de um otimismo que é a sensação de que um livro pode ser útil. O pessimismo, que toca o niilismo, é a pessoa sentar-se e não fazer nada.

 

Em bom português…

“De certa maneira, o que eu acho importante é que não exista uma ideia miserabilista de que somos muito pequeninos e tal. Eu acho que a língua portuguesa é claramente uma das grandes línguas do mundo.”

“Seria importante haver um grupo ou uma instituição que claramente fosse transnacional e que atuasse com o objetivo de difundir a língua portuguesa, que é uma riqueza, é quase o nosso ouro, é muito mais importante que o petróleo.”

“Em relação ao acordo ortográfico, não tenho uma posição nem muito a favor, nem muito contra. Nesses dias no Brasil, aprendi uma série de expressões e de palavras que nós interpretamos de uma maneira e vocês d’outra. Eu acho que os desentendimentos vêm dessas palavras, não é da ortografia. A ortografia não me parece relevante.”

“Eu acho que faz todo o sentido os livros de autores que são já publicados, que têm alguma tradição, saírem ao mesmo tempo num bocado de países de língua portuguesa. Ou seja, os leitores de língua portuguesa terem acesso ao livro exatamente ao mesmo tempo, seja no Rio, em Lisboa ou em Luanda.”

“Em princípio, meu próximo livro, que será publicado em março, sairá simultaneamente em Portugal, Moçambique, Angola e, eventualmente, no Brasil. Portanto, a começar a alargar esse mundo português.”

 (Entrevista publicada no Cronópios em 29 de novembro de 2009 – http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4311)

Gonçalo M. Tavares – Vídeos

dezembro 31, 2009

VÍDEOS

Por onde começar: Da coleção O Reino: “Jerusalém” ou “Aprender a rezar na era da técnica”. Da coleção O Bairro: “senhor Valery” ou “senhor Brecht”.

O autor por ele mesmo: Trecho de “Aprender a rezar na era da técnica”, Editora Companhia das Letras, 2008.

Cecília Meireles, por Gonçalo M. Tavares

A vingança de Marcelino

dezembro 31, 2009

Marcelino Freire escreve para se vingar. Do mundo e de si mesmo. E faz isso utilizando a voz da rua. A dor e o sofrimento alheio. Aos berros. Os personagens contam suas próprias histórias ou as revelam em diálogos e interpelações. Ora raivosos, ora desconcertantemente diretos, crus e verdadeiros. Convincentes.

A linguagem de Marcelino, mesmo escrita, é oral. É difícil manter as palavras presas às páginas. Mesmo sem perceber, você se pega ouvindo o texto ou, para vexame total, lendo em voz alta no meio da rua.

A paixão pelo teatro parece ter contribuído para isso. Marcelino não lê suas histórias, representa. O seu texto nasce da fala, e não o contrário. É ouvido antes de ser escrito. Textos curtos. Personagens à margem: da sociedade, da sanidade, do humano. Preconceito, violência, miséria, mas também amor. A brutalidade da fala direta, do grito, do depoimento. Fazem isso utilizando linguagem de sonho e confusão num momento. Em outro, com raiva e indignação. Ou, ainda, resignados.

O cuidado gráfico e o diálogo com as artes plásticas marcam o trabalho de Marcelino. Em “Eraodito”, livro de poesias visuais, é impossível desassociar forma e conteúdo. Ao longo de suas páginas, o autor reescreve e interpreta os chamados “ditos populares”, brincando com letras e frases, o que só é possível graças à utilização dos recursos gráficos e ilustrações. Nesse caso, realizadas por Silvana Zandomeni. Os contos de “Angu de Sangue” e “Rasif” também ganharam tratamento especial, com ilustrações de Jobalo e Manu Maltez respectivamente.

Nessa conversa com outras artes a liberdade é total. Marcelino escolhe artistas que admira e os deixa livres para criar. A mesma liberdade que ele demanda e precisa para escrever os seus textos.

O trabalho mais recente, ainda não publicado, foi a criação de um roteiro para uma história em quadrinhos, que será desenhada por Guazzelli e publicada pela editora Companhia das Letras. A partir desse roteiro, Marcelino passou a desenvolver seu primeiro romance, ainda sem data de conclusão.

O escritor pernambucano, que vive em São Paulo há quase 20 anos, acrescenta ao seu currículo a pecha de agitador cultural. E faz jus a ela. Marcelino criou e mantém no ar o Eraodito, blog onde compartilha sua agenda, divulgando programas e projetos, autores, livros e tudo aquilo que cativa sua atenção.

O autor afirma gostar de provocar coisas. E faz isso bem. Além de ter criado seu próprio selo para promover os projetos em que acredita, o EraOdito Editora, com a parceria do Ateliê Editorial,  segue promovendo eventos como a Balada Literária , idealizada por ele e que já está em sua 4ª edição.

O que move Marcelino? A teimosia, diz ele. Acredite quem quiser. Eu aposto na paixão. Pela palavra, pela língua, pela literatura.

Sissa: Como você escolhe seus temas?

Marcelino: Ouvindo na rua. Ouvindo a rua. Eu nunca tenho uma história pra contar. Eu penso numa frase, meu impulso é sonoro. Eu escrevo sobre tudo o que escuto. Às vezes, estou no metrô, no ônibus, e escuto. Gosto de ouvir essas falas, essas coisas que são ditas… Os meus temas vêm de alguma coisa nas frases, de uma inquietação, de alguma coisa que eu registrei ali. Uma reclamação de dor, de surpresa, encantamento. Eu guardo essa frase comigo e fico pensando em fazer alguma coisa com ela, em descobrir uma história para aquela primeira frase.

Sissa: Miséria, violência, homossexualidade, exclusão social estão muito presentes no seu trabalho. Você fala dos excluídos em geral. O que você busca?

Marcelino: As pessoas bem sucedidas não me interessam. Parece que não têm dor, aperreio. Quem está preocupado com gente bem sucedida é escritor de autoajuda. Eu tenho esse ouvido para o humano, para os excluídos. Não no caráter panfletário. Mas eu trabalho em regiões muito fronteiriças. Para o meu texto cair no discurso, no texto demagógico, é um passo. Eu corro esse risco. Fico muito aperreado com o sofrimento do outro.

Sissa: Você vê o seu trabalho como uma espécie de denúncia? Você busca dar voz a essas pessoas?

Marcelino: Não. Eu não dou voz a ninguém. Eles é que me dão voz. Eu é que escuto a voz deles. Faço o registro dessas falas, dessas ladainhas, desses gritos, dessas queixas… Eu não quero salvar o mundo. Não posso chegar e prometer isso a um leitor qualquer, que eu dou voz a quem não tem voz e que, assim, quero melhorar a sociedade e chamar a atenção das pessoas. Salvar as pessoas. Não sou igreja, não posso prometer isso. Eu escrevo porque algumas coisas me incomodam e eu quero me vingar. Escrevo para me vingar. De um amor que foi embora, de uma saudade, de um governo que não caminha, de um mundo desgovernado. Para me vingar de mim. Se o leitor lê meus textos e sente neles alguma coisa capaz de alertá-los, despertá-los, ou sei lá o que, tudo bem. Vamos fazer uma vingança coletiva. Mas não é essa a natureza primeira do meu texto.

Sissa: Você escreve para consertar alguma coisa?

Marcelino: Eu não escrevo para consertar nada. Escrevo porque tenho que escrever. Por que algo está me incomodando. É a minha forma de registrar esse incômodo. Eu não tenho a pretensão de achar que a literatura tem o poder de consertar o mundo. Tem o poder de desconcertar. Você está lendo alguma coisa, cheio das suas convicções e dos seus confortos. A literatura vai lá e bagunça. É para consertar? Não sei. Sei que desconcerta. Agora, o que você vai fazer com esse desconcerto… Há quem se mate depois de ter lido um poema.

Sissa: Você diz que seus personagens dão vexame. O que significa isso?

Marcelino: Os meus personagens não se contêm. Eles têm muita urgência. Não têm uma lógica que definimos de boa ou má, eles se manifestam. Se está doendo, eles gritam. O nordestino é muito disso, de dar vexame, de não se conter, de querer já exorcizar aquilo que está incomodando. Quando estou escrevendo, eu parto dessa primeira palavra, dessa frase que eu ouço na rua, daquilo que me incomoda, daquele sentimento que pesa todas as vezes em que me lembro dele. Quero fazer alguma coisa com aquilo. Quem é esse personagem? É uma velha falando? É um homem falando? A partir dessas questões, vou desenvolvendo a história. Eu quero chegar à natureza desse conto, à natureza desse vexame, à natureza dessa dor. Quando termino, parece que eu me aliviei, tirei esse peso, dividi esse peso com o leitor.

Sissa: Você mistura uma linguagem explosiva, cortante e agressiva com boa dose de humor. Qual é a sua receita?

Marcelino: Os meus personagens caminham por todos os eixos, todos os altos e baixos. Existe muita graça naquela desgraça. O personagem vai do riso ao choro em questão de segundos. O nordestino, principalmente o pernambucano, é muito bem humorado, ri da própria desgraça, pinta as casas muito colorido pra ver se esconde um pouco a miséria ao redor. Dança maracatu, anda quilômetros e quilômetros com aquela roupa pesadíssima para pular o carnaval. Aquele cortador de cana que se fodeu o ano inteiro. O brasileiro é assim. Muita alegria, dança. O humor vem desse modo. Também porque, se fosse só o outro lado, sem humor, aquela coisa seca, o texto ficaria discursivo. A fala pela fala, a reclamação pela reclamação. Meus personagens são tragicômicos, eles riem da própria desgraça. É uma maneira de suportar o seu destino.

Sissa: Você diz gostar de “provocar coisas”. O que faz de você um “agitador” cultural?

Marcelino: Teimosia. Estou agora, neste exato momento, fechando a programação da Balada Literária, que vai de 19 a 22 de novembro. Sem um puto, eu não tenho caixa. Tenho os parceiros, que têm suas datas de fechamento de acordos. Eu me deparo resolvendo, muitas vezes, assuntos burocráticos. Este é o quarto ano em que faço a balada literária e faço com uma raça danada. Conto com a ajuda dos amigos. Mas não tenho um patrocínio oficial, nada que possa garantir a realização do evento. O SESC Pinheiros está patrocinando, a Biblioteca Alceu Amoroso Lima, o Centro Cultural B_Arco, a Mercearia São Pedro e a Livraria da Vila, sobretudo a Livraria da Vila, que ajuda desde a primeira edição. Mas, o que faz o agitador? Teimoso, não se contém, não se conforma. Enquanto as pessoas fazem festas com um milhão, eu faço com humilhação. Peço pra um, peço pra outro. Tenho muitos amigos. Tem que ser assim, se não você não faz. As pessoas geralmente dizem: ‘eu não faço isso porque não tenho dinheiro, não faço porque não tenho tempo’. Então, o que é que você tem? Dinheiro não vai ter nunca. Mas não é a falta de dinheiro que vai me impedir de fazer alguma coisa.

Sissa: Você se considera uma pessoa crédula?

Marcelino: Eu acredito muito. Eu tenho muita fé de que eu, movido dessa vontade, dessa teimosia, posso modificar, posso realizar as coisas, independentemente das castrações e das opressões que estão o tempo inteiro nos fazendo temer. Eu tenho muita fé naquilo em que eu acredito, naquilo que estou escrevendo, naquilo que vou fazer, naquele evento específico. Eu me encho de muita fé, de muita concentração espiritual, que não delego a nenhuma coisa que esteja fora de mim. Eu não peço fora de mim. Peço dentro de mim. A essa força eu posso chamar, por exemplo, de Xangô. Eu descobri que era filho de Xangô. Descobri que Xangô é um orixá forte, justiceiro. Eu tenho muita fé em Xangô, nessa força… A minha crença é essa. É uma crença de que a gente pode sim modificar as coisas.

 

Em bom português…

“Eu sou um apaixonado pela língua portuguesa, a língua que eu falo, a língua da minha terra.”

“Eu leio muito um autor português chamado Vergílio Ferreira. Eu adoro perceber como ele vai pontuando… O Lobo Antunes é outro que acho sensacional, e também o José Luandino Vieira, que tem um ‘Q’ de Guimarães Rosa.”

“Eu ouço, por exemplo, a minha mãe falando. Às vezes, eu fico ali, quietinho, ou provoco algum assunto só para ouvi-la falar. Porque ela fala uma língua específica daquele sertão, da época em ela nasceu, e aquilo é também uma língua antiga. Aí você fala com uma pessoa de Minas Gerais, e é outra viagem. Quantas línguas se falam na nossa língua portuguesa? Então você vai para o Porto, Angola, Moçambique… Que coisa linda!”

“Somos uma língua, evidentemente, que não sabe o seu potencial. Somos isolados. A gente escreve em português e carece da tradução para ser lido em espanhol, francês, inglês.”

 (Entrevista publicada no Cronópios em 18 de outubro de 2009 – http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4246)

 


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